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Igreja Católica e arte cinematográfica

Setembro 15, 2010

A professora de cinema Inês Gil, que participou no júri Signis do Festival de Veneza, fala também dos filmes distinguidos pela Associação Católica Mundial para a Comunicação

A professora de cinema Inês Gil marcou a estreia de Portugal no júri Signis do Festival de Veneza, uma das mais importantes mostras internacionais da 7.ª arte, que decorreu entre 1 e 11 de Setembro.

A participação da docente universitária na 67.ª edição do certame, inserido na Bienal daquela cidade italiana, contou com o apoio dos secretariados nacionais das Comunicações Sociais e da Pastoral da Cultura.

A delegação da Signis (Associação Católica Mundial para a Comunicação), composta por sete jurados da Europa, Ásia e América Latina, atribuiu o prémio principal ao filme “Meek’s cutoff” (“O atalho de Meek”), da realizadora norte-americana Kelly Reichardt.

O júri decidiu igualmente distinguir com uma menção honrosa o filme “Silent souls” (“Almas silenciosas”), do russo Alexei Fedorchenko, que também ganhou o prémio de melhor fotografia.

Em entrevista à Agência Ecclesia e ao Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, Inês Gil falou sobre as implicações religiosas dos filmes premiados e da relação entre a Igreja e o cinema.

Qual a importância da presença da Igreja Católica portuguesa no júri Signis do Festival de Veneza?
Foi uma oportunidade única para expressar a nossa vontade de mostrar trabalho e participar em festivais internacionais. O júri, que era composto por sete pessoas de idades e proveniências diversas – Hong Kong, Itália, Alemanha, México, Bélgica, além de Portugal – proporcionou uma experiência muito rica devido à troca de pontos de vista, por vezes muito distintos. Penso que esta presença foi uma forma de Portugal entrar no palco internacional da Signis.
Tive a sorte de encontrar a direcção do IndieLisboa [festival de cinema que este ano incluiu, pela primeira vez, um júri da Signis]. Foi muito importante porque valoriza a parceria entre aquela mostra e a Igreja Católica.

Falemos agora do filme a que o júri Signis atribuiu o prémio principal, “Meek’s cutoff”, da realizadora norte-americana Kelly Reichardt. Quem é Meek?
É um guia contratado por três famílias que, no séc. XIX, queriam atravessar os Estados Unidos. Ele propôs um atalho mas a caravana acabou por perder-se ao seguir a sua sugestão. Entretanto conheceram um índio nativo, com quem estabeleceram uma relação que passou da desconfiança para a confiança, precisamente o contrário do que sucedeu entre os imigrantes e Meek.

Além da confiança, o filme sugere outros temas, como o encontro entre culturas e a dificuldade de comunicação…
Uma grande dificuldade de comunicação que surge quando deixa de haver referências e quando se trata de uma questão de sobrevivência. Eles estão no deserto, perdidos, completamente à mercê de Meek, que assegura conhecer o atalho, ou do índio, que as famílias não percebem por não falar a sua língua. É uma personagem muito ambígua mas que, a pouco e pouco, parece ser extremamente honesta. A dificuldade na comunicação, que faz deste filme uma história muito contemporânea, coloca-se também entre os membros das famílias, verificando-se uma tensão entre homens e mulheres, sendo estas bastante solidárias entre elas.
Os obstáculos à comunicação traduzem-se também no desconhecimento da cultura e dos rituais que o nativo vai utilizar para invocar os espíritos, dado que os imigrantes nunca sabem se ele está a gozar ou a aplicar bruxarias, boas ou más. E nós, como espectadores, também não sabemos o que o índio diz e faz. Mas progressivamente vamos identificando-nos com ele porque a sua personalidade deixa transparecer a autenticidade.
Por outro lado, os personagens fazem uma viagem à procura de água, que é o símbolo da vida e da espiritualidade. Esse itinerário transfere-se para uma procura do transcendente, ligada ao imanente, que é a sobrevivência. É uma busca da confiança e da fé.

Para os cristãos, esta viagem pelo deserto recorda a narrativa bíblica da caminhada do povo hebreu pelo deserto, fugindo do Egipto em busca da terra prometida por Deus…
Sem dúvida. Eu acho que o filme é profundamente religioso. E se é verdade que o fim é ambíguo, essa incerteza dá ao espectador a possibilidade de imaginar um caminho positivo.

O filme salienta também o problema da imigração e o papel das mulheres…
Acho que a questão das mulheres é muito interessante porque elas são as encarregadas do trabalho físico e do cuidado pelos filhos, enquanto que os homens têm a responsabilidade de guiar a caravana. Há de facto um desequilíbrio, além de a comunicação não passar bem entre eles. Mas é preciso não esquecer que a narrativa decorre no séc. XIX. É um filme extremamente rico, que toca muitas questões merecedoras de aprofundamento.

O que é que levou o júri a escolher “Meek’s cutoff”?
O filme é um “anti-western” que mostra a caminhada de pioneiros americanos na esperança de um futuro melhor. Esta esperança é fundamentada no encontro com o desconhecido: as pessoas – o índio e os próprios familiares, que por vezes aparentam ser estranhos uns para os outros – a cultura e o deserto.
O filme também trabalha a dimensão do tempo, o que é lindíssimo: qualquer coisa é difícil de fazer e leva tempo. É preciso tempo para fazer um pouco de comida. É preciso tempo para arranjar um sapato. E surgem sempre obstáculos que vão atrasar o que estava previsto. É preciso quase moldar o tempo. O tempo é o que nos vai permitir esperar, sentir e viver as coisas. É um aspecto que tem muito a ver com a fé e a espiritualidade.

A lentidão do tempo pode ser exasperante para o espectador…
Alguns saíram da sala, infelizmente. É preciso deixar sentir o tempo, como nos filmes de Tarkowski. É preciso ter tempo para sentir o tempo, e hoje em dia isso não é muito comum. Queremos é esquecê-lo fazendo milhares de coisas.

O deserto poderia proporcionar grandes panorâmicas, mas a realizadora opta por um formato que o reduz…
Acho que ela quis quebrar o género do western. É outra coisa que se joga. Até porque os personagens são anti-heróis. Mas, ao mesmo tempo, a fotografia é belíssima e a paisagem também é protagonista: é dura, não tem água, faz-se difícil e, por isso, a sua relação com os personagens é um dos conflitos da narrativa.

“Meek’s cutoff” pode ser visto como uma metáfora da existência humana aberta ao transcendente?
Sim, perfeitamente. No entanto, na conferência de imprensa, Kelly Reichardt não realçou muito a questão religiosa. Tenho a impressão que ela continua a ser um bocadinho tabu no cinema. É difícil para os cineastas admitirem que estão a exprimir, de forma religiosa, uma série de coisas. É difícil hoje em dia reconhecer que, por exemplo, a religião cristã está baseada na liberdade, e não numa ideia de fechamento. Embora sem o dizerem explicitamente, estes filmes mostram que todos os valores católicos assentam na liberdade, não entendida de qualquer maneira, obviamente.

O filme que recebeu a menção honrosa da Signis, “Silent souls, também fala de uma caminhada…
Foi muito difícil para alguns membros do júri – e eu fui um deles – escolher entre os dois. Ao princípio optei por “Silent souls” porque é um filme obviamente espiritual e extremamente poético, enquanto que “Meek’s cutoff” é um pouco mais ilustrativo. O trabalho do realizador russo Alexei Fedorchenko fala de imagens através de imagens, com muito simbolismo. Também tem a ver com questões culturais.
O erotismo, que não está presente no filme de Kelly Reichardt, apresenta-se de maneira muito forte em “Silent souls”. É um tema interessante porque está muito ligado à espiritualidade. Trata-se de uma questão que ainda não é suscitada com frequência, dado que, durante muitos anos, os dois conceitos opuseram-se, em vez de se interligarem. E nesse filme há uma reconciliação.
O júri considerou que “Silent souls” mostra como o amor pode ultrapassar a morte. O filme sublinha igualmente o papel das tradições e rituais quando enfrentam os desafios existenciais da vida.

A história centra-se num homem que, acompanhado por um amigo, faz um longo trajecto para cremar a sua mulher recém-falecida, seguindo as antigas e quase extintas tradições religiosas da esposa…
O homem queria despedir-se da mulher a partir de um ritual que consiste em queimar o corpo e lançar as cinzas num lago. A narrativa revela que ela era amada pelos dois homens. E há também uma história de aves – o título original do filme, “Ovsyanki”, é o nome de uma espécie comum de pássaros – que são levadas pelo amigo no mesmo carro onde é transportado o corpo da mulher até ao local do ritual.
Aqui há também um trabalho sobre a relação entre homem e mulher. O viúvo não era certamente o mais delicado dos homens, chegando mesmo a falar de forma grosseira da esposa, enquanto que o amigo, que não teve nada com ela, mostra um grande respeito.
Do ponto de vista da forma fílmica, é mais interessante do que “Meek’s cutoff”, e por isso o júri esteve indeciso. Foi por pouco que o filme russo não ganhou o prémio principal da Signis.
Na conferência de imprensa com o realizador, os jornalistas começaram a falar da tradição do cinema russo em que Alexei Fedorchenko se inscreve. Ele preferiu desmistificar o filme e pediu para que não o intelectualizassem. Acho que a posição dele foi muito bonita porque optou pela simplicidade.

É também um filme sobre a capacidade (ou incapacidade) de expressar o amor…
Exactamente. A narrativa, que é feita pelo amigo, acaba na questão do amor, que é o mais importante, que salva. O amor é o que torna a pessoa infinita. E o facto de o tema ser tão bem mostrado faz com que o filme seja muito forte.
A partir do momento em que a dimensão lírica e poética se manifesta, “Silent souls” sai do ilustrativo e toca mais o espectador. Tem muito a ver com emoções que fazem pensar, dão liberdade e abrem ao questionamento, enquanto que a identificação emocional tradicional projecta emoções no espectador e este não pensa – simplesmente sente o que lhe está a ser transmitido.
Mas em “Silent souls” há algumas coisas de que não gostei muito. Por exemplo, a grosseria com que o viúvo fala, um aspecto que também foi referido por outros membros do júri. Pode chegar a pensar-se que ele é ligeiramente misógino. Acho que não era preciso dizer certas coisas… Foi por isso que, no fim, dei o meu voto a “Meek’s cutoff”.

“Meek’s cutoff” e “Silent souls” ‘correm o risco’ de não deixar o espectador confortável e passivo…
Sim, mas é bom que os filmes despertem novos universos emocionais e mentais. O júri Signis quer obras que fiquem, que possamos transportar connosco, que deixem sensações fortes, que questionem, toquem e transformem.
Nos 24 filmes que concorreram ao Leão de Ouro [prémio principal do Festival de Veneza] havia, infelizmente, muitos trabalhos baseados no entretenimento e na violência. Para nós essas obras não interessam porque assentam na artificialidade e na superficialidade, e por isso não fazem pensar. Podem tocar emocionalmente mas não questionam.
O que é interessante na religião, e em particular no cristianismo, é que ele questiona, renova, está sempre à procura de uma justificação. E quando não há resposta possível, tenta descobrir como podemos viver melhor.
Acho que uma das funções dos filmes é trazer à consciência do espectador aquilo que está inconsciente. E, de repente, a consciência abre novas portas.
Muitos dos filmes fora da competição para o galardão principal enquadravam-se muito melhor no âmbito do prémio da Signis. E no total dos 24, foi óbvio para o júri que não haveria mais do que cinco que poderiam obter essa distinção. É pouco…

Entre os filmes da competição oficial, que outras escolhas recomendaria?
Havia um filme italiano de que gostei muito, “La pecora nera” [de Ascanio Celestini], sobre a doença mental: saber onde é que ela começa e acaba e se os doentes são os que estão dentro das instituições. Penso que a obra terá ficado em 3.º lugar na nossa escolha.
E recordo o filme surpresa da competição, “The ditch” [co-produção de Hong Kong, França e Bélgica realizada por Wang Bing], sobre os campos de reeducação na China maoista. Apesar de ser uma ficção, parece um documentário. É uma obra que questiona a experiência de Deus. Pertence àquele género de filmes que nos fazem duvidar para acreditarmos ainda mais.

Chegou a ver os filmes de Manoel de Oliveira e João Nicolau [realizadores portugueses que apresentaram obras em Veneza]?
O filme de João Nicolau [“A espada e a rosa”] foi exibido à mesma hora da projecção de uma obra que eu tinha mesmo de assistir. Mas espero vê-lo em Portugal. Quanto à curta-metragem de Manoel de Oliveira [“Painéis de São Vicente de Fora – Visão poética”], achei muito interessante. É uma forma muito original de apresentar os painéis.

Como classifica a relação actual entre a Igreja e o cinema?
A Igreja está pronta para um diálogo livre. Em Portugal há uma grande vontade de dialogar com as artes contemporâneas, incluindo o cinema.
No entanto penso que subsiste a ideia errada de que a Igreja está fechada e é dogmática. Há muitos preconceitos. Em França, por exemplo, a relação entre o cinema e a religião está completamente posta de parte. Todos os críticos e teóricos estão desinteressados dessa questão. Para eles, abordar a religião é quase como entrar num campo que não faz parte do cinema.
A relação entre Igreja e cinema nunca foi pacífica. Mas eu vejo que a Signis dá prémios a filmes que não são confessionais. São obras muito interessantes, que tocam assuntos como a sexualidade e a violência. Obviamente que há sempre uma crítica muito forte quando estes aspectos são enquadrados de forma negativa. Mas quando a aproximação é positiva, a Igreja reconhece-o.

A relação entre a Igreja e o cinema não passa apenas por filmes explicitamente religiosos, mas também por trabalhos que recorrem a imagens, cenas e palavras que alguns católicos podem considerar chocantes quando confrontadas com a mensagem evangélica…
Exactamente. Muitas vezes, para construir é preciso desconstruir. No caso da violência, por exemplo, um dos critérios da avaliação dos filmes que a Signis propõe é questionar o júri sobre se essa agressividade pode ser construtiva. O facto de um filme ser violento não implica que ele não tenha qualidade e que sejamos obrigados a rejeitá-lo logo à partida.
Estou a lembrar-me de Jesus, quando entrou no templo e derrubou as bancas onde os comerciantes faziam os seus negócios. É certo que se trata de violência, mas não é gratuita, isto é, procura revelar uma verdade essencial da identidade de Deus.

Para quando um festival de cinema religioso em Portugal?
É um projecto que temos, mas talvez não a curto termo. Penso que em Portugal essa iniciativa vai estar aliada ao aprofundamento teológico. Se é para mostrar filmes comerciais, como a “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, não acho muito interessante. Acredito mais na ideia de exibir e discutir obras que não sejam explicitamente religiosas.

Veja aqui fotogramas dos filmes premiados e o “trailer” de “Silent Souls”.

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Cinema em freguesias da Maia

Setembro 10, 2010

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O BEM COMUM deixou de receber nformações da Câmara Municipal da Maia, esperamos que o retomem.

João Canijo no Porto

Maio 22, 2009

Para quem queira conhecer melhor a obra de João Canijo, aconselho a leitura do seguinte texto da autoria de Daniel Ribas que serviu de base à apresentação feita pelo investigador da Universidade de Aveiro no 6.º Congresso da SOPCOM, que se realizou em Lisboa em Abril passado.

Resumo:
O conceito de Escola Portuguesa de cinema tem sido debatido por alguns investigadores (Bénard da Costa, 1991; Lemiére, 2006) como uma hipótese de visão de conjunto da história do cinema português desde o cinema novo até ao fim dos anos 80. Apesar de ser ainda um conceito pouco investigado e desenvolvido, ele pretende ocupar-se das características comuns dos filmes portugueses: desde a sua produção “artesanal” até uma certa unidade temática, bem condensada na expressão de Jorge Silva Melo (citada por Bénard da Costa, idem, pág. 169) dos “retratos de ausência”. É também aceite “e, algumas vezes, criticado” que estes filmes se debruçam, obsessivamente, na questionação de Portugal, algo que Bénard da Costa (idem, pág. 184) definirá assim: “(…) a imagem espectral [do cinema português] (…) melhor do que nenhuma outra, reflectiu, nos seus fantasmas e frustrações, medos e culpas, a imagem da realidade portuguesa, ao menos desde Salazar até aos nossos dias”.
Numa primeira fase, será objectivo da comunicação esclarecer o conceito de Escola Portuguesa Será, pois, neste contexto teórico e histórico que se pretenderá abordar o trabalho contemporâneo de João Canijo. O realizador desenvolveu, nos últimos anos, um corpus de filmes significativo a nível da crítica e da recepção internacional (sobretudo com os seus últimos quatro: Sapatos Pretos, Ganhar a Vida, Noite Escura e Mal Nascida).
Esta comunicação pretende, por isso, questionar a obra de Canijo sob duas perspectivas: a abordagem estética e o retrato múltiplo da identidade nacional. A partir destas duas perspectivas procurar-se-á comparar o trabalho de Canijo com os elementos fundamentais da Escola Portuguesa.

 

Para ter acesso ao texto integral, carregue aqui.

Publicado em Ensaio

(Origem: pesquisa no google.)

Manuel de Oliveira: 100 anos de vida!

Dezembro 14, 2008

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Nova Revista Online

Outubro 14, 2008

A nova revista da APAD (Associação Portuguesa de Argumentistas e Dramaturgos) está já online! Eu sou um dos coordenadores e a revista promete aparecer trimestralmente com conteúdos renovados. O site serve também como portal institucional da associação.

O tema do primeiro número é “Ser Argumentista em Portugal” e podem-se destacar os seguintes conteúdos:

  • entrevistas a Nuno Markl, Rui Vilhena e António Ferreira
  • uma conversa com Pedro Marta Santos sobre “Amália” e “A Vida Privada de Salazar”
  • artigos de opinião de Tiago R. Santos e Jorge Vaz Nande
  • um perfil sobre Neil Labute
  • análise a filmes e séries de televisão

A APAD lança também, com este novo site, um processo de refiliação dos sócios com a intenção de voltar a relançar a participação dos argumentistas e dramaturgos portugueses.

Terra dos Bravos – hoje em estreia

Agosto 28, 2008

o fim dos heróis
(Este artigo foi publicado no mês de Maio em «O Primeiro de Janeiro. Contudo, a estreia do filme foi repentinamente adiada e o texto perdeu actualidade. Finalmente, hoje o filme estreia nas salas portuguesas, quatro meses depois.)

A vaga de filmes americanos a ocupar-se da guerra no Iraque foi grande acerca de um ano atrás. Alguns desses filmes chegaram à exibição em Portugal, como o documentário de Michael Moore «Fahrenheit 9/11» ou a ficção de Brian De Palma «Censurado». O ponto de vista crítico sobre a guerra sempre foi uma constante nestes filmes, devido, sobretudo, a uma Hollywood sempre liberal. Chega-nos agora às salas um filme produzido em 2006 que se ocupa também da Guerra do Iraque e, sobretudo, das consequências posteriores dessa guerra. Trata-se de «Terra dos Bravos», do americano Irwin Winkler, um realizador de poucas longas-metragens, que tem estado ligado à produção. O filme é um exercício ambíguo sobre o que a guerra faz aos soldados e a forma como desorienta o seu futuro.

A narrativa segue a vida de quatro soldados no Iraque: Will, Vanessa, Jamal e Tommy. Prestes a regressarem a casa, os soldados acabam por cair numa emboscada, quando estavam numa missão de socorro. Essa emboscada tem consequências brutais para todos eles, desde a perda de um grande amigo (Tommy), até à mão que fica decepada (Vanessa). É, talvez, o culminar de muitas violências físicas e psicológicas de quem nunca está preparado para enfrentar a guerra. Depois dessa sequência inicial, o filme dedica-se à história dos quatro soldados no regresso a casa e à América: Vanessa tem que aprender a viver com uma mão de prótese; Tommy não consegue ultrapassar a morte do seu amigo mais íntimo; Jamal é presença regular num hospital militar e psiquiátrico; e Will, médico, não consegue voltar a encaixar na sua família e torna-se alcoólico.

A construção narrativa de «Terra dos Bravos» parece decidir-se em opor-se à guerra, mostrando as sequelas com que os soldados são obrigados a voltar para casa. Contudo, ao filme falta muita coisa para além dessa aparente oposição. Por um lado, o cinema está repleto de filme sobre ex-soldados com resultados extraordinariamente melhores. Para este caso, a lógica cinematográfica é totalmente desprezada, conduzida anonimamente como se o filme fosse um vulgar telefilme de uma televisão por cabo. O que é mais irritante, é, sobretudo, a forma como Irwin Winkler monta o seu filme, usando e abusando de clichés como os slow-motion ou o campo/contra-campo banal. Não é o uso estrito dessa linguagem que se critica, mas a forma como é usada: vulgar e menor.

Dessa linguagem irregular resulta um filme sensaborão, onde até o happy-end parece forçado, como se estes soldados descobrissem, de repente, a forma de conseguir fugir aos fantasmas. Nesse sentido, o filme também abusa das elipses, como se elas fossem o único meio de mostrar a evolução das personagens. Até Christina Ricci aparece a fazer um papel que dura apenas 15 minutos. Falta quase tudo para «Terra dos Bravos» ser um filme interessante e era bastante dispensável a sua estreia nas salas portuguesas.

«Terra dos Bravos» («Home of the Brave»). Um filme de Irwin Winkler, com Samuel L. Jackson, Jessica Biel, 50 Cent e Christina Ricci. Estados Unidos, 2008, Cores, 105 min.
Site Oficial: http://www.mgm.com/sites/homeofthebrave/

O Cavaleiro das Trevas

Julho 27, 2008


o bom, o mau e o vilão
(artigo publicado na edição de Quinta de «O Primeiro de Janeiro»)

Esta semana Portugal assiste a uma das mais esperadas estreias do Verão: o novo filme da série Batman, desta vez sem o nome do herói no título: «O Cavaleiro das Trevas». O filme é assinado pelo realizador Cristopher Nolan, um autor de dois filmes de êxito no início do século: «Memento» e «Insomnia». Na verdade, Nolan traz para este Batman uma visão pessimista e escura das relações humanas e, nesse sentido, subverte o conceito de herói. Mais do que actual nos tempos de hoje. Para além disso, o filme fica marcado como o último trabalho de Heath Ledger, o actor de «Brockenback Mountain» que acabaria por cometer suicídio no início de 2008. Mais uma razão para o filme se tornar um objecto de culto. Por um lado, o filme merece um visionamento cuidado e, por outro, revela um argumento demasiado labiríntico.

A narrativa do filme inicia com mais uma guerra contra o crime: o Batman volta a ajudar a polícia e o seu amigo Gordon. Contudo, apesar do sucesso que a operação parece conseguir, um novo personagem se introduz estragando o esquema da lei: o Joker. Com os seus mirabolantes e imprevistos esquemas, o Joker consegue ludibriar todos e, dessa forma, espalha o terror por Gotham City. Muitas mortes depois, o Batman inicia uma caça ao homem, mas, com demasiadas reviravoltas, o que consegue fazer é provocar a morte da sua paixão de sempre, Rachel, que agora era companheira de Harvey Dent, um procurador determinado que também acaba por sucumbir à loucura quando Rachel morre.

Como se vê pela narrativa, «O Cavaleiro das Trevas» é um labiríntico enredo de voltas e reviravoltas, com sucessivas formas de “eu-planeei-este-contrataque-depois-de-ti”. Nesse sentido, o filme perde-se e faz esmorecer a eventual ansiedade pelo rumo da narrativa. Porque, na verdade, o filme acaba por ter diversos pontos de interesse, a começar pelo momento de graça de Heath Ledger como Joker: um verdadeiro personagem do mal, um lunático doente psiquiátrico que não tem referências morais e que leva ao desespero Batman e a polícia, porque não conseguem prever o que vai acontecer.

É talvez esse o ponto de partida para o lado mais pessimista do filme, a saber: Batman descobre que será impossível erradicar o crime e Joker consegue fazê-lo debater com uma pergunta moral: devo ou não transgredir as regras? Por isso, Batman acaba por ser visto como um playboy à procura de conquistar a mulher que ama e que não sabe se deve ou não parar com a sua actividade. Talvez se o filme se conseguisse concentrar neste debate, pudesse ser mais conciso e determinante. Assim sendo, «O Cavaleiro das Trevas» constrói uma teia complexa de personagens que se vão sobrepondo umas às outras. É pena, porque Nolan parecia ter construído uma face mais humana para este cavaleiro agora menos herói e mais indeciso. Mas agora só resta esperar pela próxima sequela.

«O Cavaleiro das Trevas» («The Dark Night»), um filme de Christopher Nolan, com Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Aaron Eckhart, Gary Oldman e Morgan Freeman. Estados Unidos, 2008, Cores, 125 min.
Site Oficial: http://ocavaleirodastrevas.com.pt/

Crónicas de Nárnia

Julho 18, 2008

o mundo secreto
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Como sempre, chega o calor e com ele chegam ao cinema filmes que pertecem a uma classe distinta: são os filmes blockbusters feitos para as crianças terem ocupação. Neste contexto, essa classe distinta costuma ser produzida por uma das produtoras mais relevantes da história deste cinema: a Disney. Contudo, alguns destes filmes são interessante e outros, simplesmente, são inúteis e talvez sirvam apenas para entreter os miúdos. É dentro dessa categoria que se inclui a estreia desta semana: «As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian». Na verdade, este é já o segundo filme da série que se iniciou com «As Crónicas de Nárnia: o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa» que convoca as personagens criadas pelo escritor C.S. Lewis e que são, novamente, realizadas por Andrew Adamson. É curioso que o realizador é, a par destes filmes, o autor dos primeiros dois filmes de «Shrek». Estamos, portanto, a lidar com alguém especialmente vocacionado para um mundo infantil, mas que é capaz de o ler com muitos olhos. Contudo, esse não é o caso destas simplistas «Crónicas…».

A narrativa do filme volta aos seus quatro protagonistas: dois rapazes e duas raparigas que são os velhos reis de Nárnia. Contudo, quando voltam para a sua terra, eles são confrontados com o poder do rei Miraz (e dos Telmarines) que pretende matar Caspian, o princípe herdeiro, para coroar o seu filho acabado de nascer. Para além disso, os quatro reis terão que se aliar ao animais da floresta (animais falantes) para conseguir derrotar o exército burtal do rei Miraz. Mas, como a sua força é diminuta, os reis terão que usar outro recurso: encontrar o Leão Aslan para este, com os seus poderes, conseguir derrotar um exército inteiro.

Claro que basta sentir esta temática fantasiosa para perceber que filme temos. Para além disso, não há aqui o álibi da animação (como em «Shrek») que permite contornar a seriedade do tema com uma contagiante comédia de costumes. Nesse sentido, estas «Crónicas de Nárnia…» são um pastelão da literatura fantástica, incapaz de ir mais além, como, porventura, poderemos reconhecer no exemplo maior do género: «O Senhor dos Anéis». Chega, assim, a ser entendiante a forma como o filme percorre a sua história, contada vezes e vezes sem conta desde há muitos anos, como sabiamente já reconheceram os mais proeminentes linguistas. Até no domínio dos blockbusters essa ligação é antiga, bastando citar o exemplo mais longínquo (pelo meno para a miudagem de hoje) de «Guerra das Estrelas.

A sequência final é, pois, um monumento de estereotipia na construção do argumento: um obstáculo inultrapassável (a força do exército de Miraz) e a vinda de um poder “maior” (o leão Aslan) que, num só movimento, é capaz de derrotar um exército inteiro. Este jogo do espectáculo e deste poder “maior” é tão simplista como infeliz, colocando o nível etário do filme bem mais baixo. Venha o cinema verdadeiro!

«As Crónicas de Nárnia: O Príncipe Caspian» («The Chronicles of Narnia: Prince Caspian»), um filme de Andrew Adamson, com Ben Barnes, Georgie Henley, Skandar Keynes, William Moseley e Anna Popplewell. Estado Unidos/Reino Unido, 2008, Cores, 147 min.
Site Oficial: http://disney.go.com/disneypictures/narnia/

Cinemateca no Porto

Julho 16, 2008

Só hoje reparei na notícia!

Jornal Público
Porto vai ter cinemateca no próximo ano
14.07.2008

Até ao final do mandato do actual governo, o Porto vai ter uma cinemateca instalada na Casa das Artes. O complexo vai chamar-se Henrique Alves Costa (que era já o nome da sala de cinema que aí funcionou). O “compromisso” foi assumido publicamente pelo ministro da Cultura, no sábado à noite, na inauguração da exposição que o Museu de Serralves dedica a Manoel de Oliveira.
José António Pinto Ribeiro acrescentou que a cinemateca será gerida “a partir do Porto e por gente da cidade”, e contará com o apoio da Cinemateca Portuguesa e do seu director, João Bénard da Costa. O ministro pediu também o envolvimento da Fundação de Serralves e da Câmara do Porto para a instalação do equipamento.
Em declarações ao PÚBLICO, Pinto Ribeiro disse que não podia comprometer-se com datas: “Será o mais depressa que eu puder, até às próximas eleições. É um projecto que eu tenho na cabeça há muito tempo, e no qual comecei a trabalhar logo que tomei posse”, adiantou o ministro, que também não tem ainda uma equipa designada para gerir o equipamento.
A Casa das Artes já está a ser alvo de obras de readaptação para a cinemateca, que estão a ser orientadas pelo arquitecto Eduardo Souto Moura, autor do projecto inicial. S.C.A.

Curtas . Vila do Conde 2008

Julho 13, 2008

A Hora da Ficção

Como assinalado na edição de Sexta, Manoel de Oliveira foi homenageado pelo festival, juntando-se ao festejo do centenário do seu nascimento. Mas, para além disso, o Curtas agradeceu a força que Oliveira deu, desde o início do festival, como padrinho e como impulsionador criativo. Na verdade, Oliveira é o grande “pai” de todos, incluindo os realizadores que, ano após ano, estão presentes na competição. Presente na sala, Oliveira parece um jovem, quer de corpo (galgou o palco para chegar ao púlpito), quer na cabeça, já que as suas frases são espirituosas e extraordinárias. Muitas frases parecem simples, mas escondem um pensamento profundo e labiríntico nas teias da personagem humana.

Esta introdução não podia ser mais perfeita para falarmos, agora, da competição nacional desta 16.ª edição do Curtas. Durante três sessões foi possível, mais uma vez, tomar o pulso à produção nacional de formato curto. De um ponto de vista geral, a competição privilegiou a ficção como género preferido e mais bem trabalhado pelos realizadores. Como os últimos anos têm provado também assistimos a uma mistura de géneros, numa forma híbrida de encarar a narrativa.

Gostaríamos de destacar três filmes que, no nosso entender, são os melhores filmes da competição e que deverão estar presentes no palmarés que terá sido anunciado na noite de ontem. Dois desses filmes são puramente ficcionais. O primeiro é o regresso do encenador e autor de teatro Jorge Silva Melo ao cinema, com uma pequena narrativa que designou como “A Felicidade”. A principal personagem é o surpreendente Fernando Lopes aqui como um comovedor homem de idade que está ser levado pelo seu filho ao hospital. Eles seguem de carro pela marginal solarenga e a vida está em plena vitalidade no passeio da praia. Pai e filho recordam alguns bons momentos do passado enquanto ouvem música clássica. Quando chegam ao hospital o filho deixa sair o pai para estacionar o carro. É aí que sentimos um momento de fim, que é tão sereno como triste. Só é pena uma voz off explicar aquilo que já percebemos.

O segundo filme é “Alpha”, uma surpreendente ficção científica realizada por Miguel Fonseca numa produção O Som e a Fúria. Dois andróides de aparência humana estão na fase final de instrução para serem entregues aos seus donos (dois portugueses a residir no Japão). Aprendem tarefas básicas assim como complexas (como tirar o dono da tristeza). A abordagem formal é muito contida e prova que a ficção científica não precisa de efeitos especiais para passar ideias.

O terceiro filme é já um cruzamento entre ficção e documentário. Trata-se do regresso de Miguel Clara Vasconcelos ao festival (onde venceu o grande prémio com “Documento Boxe”) com uma narrativa que aborda a violência doméstica “Instantes”. O filme olha as personagens com uma evidente entrega e mostra que um assunto pode ser criativamente explorado. Formalmente é também um filme rigoroso e permite lançar a ponte entre a “história” inventada e as vozes de mulheres “reais” e vítimas de violência. Tem também um plano excepcional quando olha o vazio da personagem que se quer suicidar na Ponte da Arrábida.

Podemos também destacar outras curtas de algum interesse, caso de “Caravaggio”, mais uma ficção “teatral” de José Maria Vaz da Silva (como uma fotografia muito bonita e uma recriação de época cuidada); “Corrente”, de Rodrigo Areias, uma narrativa experimental, filmada artesanalmente em 16mm nas minas da Panasqueira (a experimentação formal é algo bastante importante no contexto do cinema do futuro e as imagens são bem conseguidas); “Outside”, de Sérgio Cruz, um documentário filmado na China, na ante-câmara dos jogos Olímpicos (e que consegue adaptar o “exotismo” oriental); e, finalmente, “Cândido”, uma animação de Zepe (que, assim, volta ao festival), com uma técnica típica do autor e uma história bem estruturada.

Menos conseguidos são os outros títulos, como “Fevereiro”, de Francisco Botelho (que se perde no labirinto da sua narrativa, apesar de uma interessante fotografia) ou “Odisseia”, de Rita Palma, demasiado previsível e inconstante.

Não podemos deixar de assinalar, ainda, uma outra característica recorrente desta edição: a força dos filmes experimentais. Por um lado, com as exposições na Solar (casos de Martin Arnold e Tsai Ming Liang), que nos permitem recontextualizar estes filmes. E, por outro, com alguns filmes exibidos na competição internacional, casos de “Obersvando el Cielo” (já a segunda curta que usa a técnica do timelapse), “Bordate” ou “Odin’s Shield Maiden”. Este é um género em crescimento, embora, este ano, os filmes mais interessantes tenham sido, mesmo na Competição Internacional, filmes de ficção.

Hoje acaba o festival com a exibição dos filmes premiados e o Curtas despede-se já a pensar no próximo ano (com uma prometida exibição de excertos de um filme inédito de Manoel de Oliveira). O Curtas já deixa saudades…

Tropa de Elite

Julho 11, 2008


a violência do poder
(texto publicado na edição de ontem do jornal «O Primeiro de Janeiro»)

Infelizmente, em Portugal pouco se vê cinema brasileiro. Na verdade, esse cinema é muito diverso e não se confunde com a ficção que as telenovelas da Globo exportam para o nosso país. Mesmo sem conhecer a verdadeiro dimensão da diversidade (só possível conhecer em alguns festivais de cinema, como é caso paradigmático do Festival Luso-Brasileiro), é possível reconhecer em alguns dos filmes estreado nos últimos anos, uma vitalidade do cinema brasileiro, sobretudo aquele que está ligado a uma certa tradição estética: o cruzamento de uma linguagem visual publicitária (porque muito trabalhada a nível da fotografia) com temas sociais sensíveis. Foi assim com o caso mais evidente dessa visibilidade – «Cidade de Deus», de Fernando Meirelles – e é assim com o filme que hoje estreia nas salas de cinema: «Tropa de Elite», do realizador José Padilha. Esta é a sua segunda longa-metragem (a primeira foi «Ônibus 174») e já é um caso de evidente sucesso, quer em termos de público brasileiro, quer em termos de festivais – foi o grande vencedor do Urso de Ouro no último festival de Berlim.

O filme é baseado num livro homónimo escrito por André Baptista, que narra a sua própria história (através da personagem de Nascimento): ele é um membro do BOPE, uma polícia de elite que actua em casos limite no interior das favelas brasileiras. Contudo, a sua vida está num impasse: ele vai ser pai e quer abandonar a linha da frente. Para isso, ele tem que encontrar o substituto ideal para o seu lugar. E esse substituto sairá da dupla de amigos Neto e Matias. Os dois são apenas polícias militares (a PM) e Matias ainda estuda para ser advogado. Contudo, ambos se inscrevem no curso para se tornarem membros do BOPE. Mas, Matias está demasiado envolvido com Maria, uma rapariga rica com preocupações sociais e que trabalha numa ONG no interior da favela. Maria não sabe que Matias pertence à polícia e isso levará a muitas complicações com os traficantes da favela. Nos meandros desta história, Nascimento terá que escolher o seu sucessor. Só quem sobreviver ao terror da BOPE poderá aceder ao estatuto.

É curioso que, na primeira parte de «Tropa de Elite», Matias, ainda na universidade, discute numa aula de sociologia o livro de Michel Foucault, «Vigiar e Punir», um texto que discute a forma como o poder se legitima através dos seus discursos e práticas sobre o corpo (a microfísica do poder). E, na verdade, o filme é sobre isso: a forma como o poder consegue controlar os seus desvios e a forma como uma sociedade se adapta ao contexto que ela própria cria. Neste caso, é a favela com um equilíbrio muito instável de poderes e de formas de violência. Não há dúvida, por isso, que este filme só podia ser assim, muito violento, capaz de impor uma ética da repressão que nos coloca contra a parede. É por isso que «Tropa de Elite» é um filme instável, sempre na corda bamba. Mas, parece-nos que José Padilha e os seus co-argumentistas fazem por isso: não há moral, o filme simplesmente apresenta uma história e coloca-a em frente aos nossos olhos. É certo que a voz-off de Nascimento (uma estratégia comum a alguns filmes brasileiros) nos obriga a uma identificação com a sua instabilidade. Aliás, tanto ele como Matias são apresentados como pessoas afáveis, capazes de criar empatia com o público. Contudo, o próprio filme se encarrega de desmontar essa identificação com sequências brutais onde ambos são protagonistas.

O filme despoletou muita discussão no Brasil e outra coisa não seria de esperar: todo o microcosmos da favela é explosivo e parece que qualquer tentativa de explicar se enreda num labirinto de cumplicidades e de corrupção entre polícia e traficantes de droga. A complexidade da estrutura de sociedade é, por isso, a imagem de marca. E se, por um lado, o filme justifica a criação de uma tropa de elite brutal (a BOPE), ele também denuncia as práticas de violência dessa polícia (para quem a morte é normal). É difícil, nesse sentido, fazer um juízo claro. Contudo, o filme é construído visualmente de uma forma muito semelhante com «Cidade de Deus» (os filmes parecem irmãos, olhando um para o outro de cada lado da barricada): uma imagem forte, com uma câmara descontrolada, sempre em cima das personagens e da acção. Nesse sentido, ele não deixa respirar, mas também essa é a sua função: colocar-nos entre a espada, obrigando-nos a olhar para a violência e a encarar a morte.

«Tropa de Elite». Um filme de José Padilha, com Wagner Moura, André Ramiro, Caio Junqueira e Maria Ribeiro. Brasil, 2007, Cores, 117 min
Site Oficial: http://www.tropadeeliteofilme.com.br/

Brincadeiras Perigosas

Julho 7, 2008

Brincadeiras Perigosas
as aventuras de tom & jerry
(publicado na edição de Quinta-Feira do jornal «O Primeiro de Janeiro»)

Em 1998, Gus Van Sant, um ano depois do seu sucesso mais comercial («Good Will Hunting/O Bom Rebelde»), realizava uma das suas experiências cinematográficas: «Psico», um remake – planor por plano – da obra-prima de Hitchcock, agora com outros actores. O filme foi recebecido com um misto de admiração e desilusão, já que se questionava a actualidade de um remake igual (ou quase-igual) ao título original. É também com surpresa que se vê o filme que hoje estreia nas salas: «Brincadeiras Perigosas», do austríaco Michael Haneke. Na verdade, o filme é um remake do título homónimo (e filme de culto) realizado pelo próprio Haneke em 1997, com actores alemães e falado em alemão. Alguém terá feito ver a Haneke que o filme poderia ter um sucesso forte nos Estados Unidos, se o casting fosse americano e falado em inglês. Tal serviu para Haneke avançar para uma aventura arriscada: filmar, de novo, o seu filme, plano-por-plano, agora com actores americanos. O filme é, mesmo, uma aventura de terror “realista”, e, para quem, como nós, não viu o original, é um soco no estômago.

A narrativa de «Brincadeiras Perigosas» inicia com um travelling sobre um jipe topo de gama. Dentro dele vai uma família feliz: George, o pai; Anna, a mãe; e Georgie, o filho. Eles vão passar férias para a sua casa de campo, uma mansão enorme junto a um lago paradisíaco. Percebe-se que haverá um jogo de golfe e que os vizinhos são velhos conhecidos da família. Contudo, nessa mesma tarde, a família recebe a visita do desconhecido Peter que, sob o pretexto de pedir ovos para a sua vizinha, se introduz na casa. Mais tarde também chega Paul e os dois não demorarão a fazer entender à família ao que vêm: fazem uma aposta com eles que até às 9h00 da manhã do dia seguinte eles estarão mortos. Assim, os dois rapazes, vestidos com impecáveis fatos de golfe (calções, camisola, meias e luvas brancas), jogarão com a família aterrorizada, jogos de terror, matando os três um-por-um, com pormenores sádicos, mas sempre com uma postura “polite”.

Não há dúvida que Haneke pretende com «Brincadeiras Perigosas» fazer um statment sobre o estado da loucura colectiva em relação ao espectáculo de entretenimento televisivo e cinematográfico que glorifica a violência. É por isso que o filme obdece a uma lógica pura de uma violência controlada, mesmo que seja aterradora. Nesse sentido, a narrativa acaba por ser brutal, deixando-nos estupefactos para com a aparente secura com que os assassinos continuam os seus jogos. Na verdade, Haneke segue de perto os códigos dos filmes de terror, mas apenas apararentemente: por exemplo, nunca há “acção” no sentido em que os filmes de terror entendem as sequências de perseguição. Há, por outro lado, uma lentidão cinematográfica que permite, como acontece, uma sequência de um só plano com cerca de 10 minutos (quando, no fim da primeira parte do filme, Paul e Peter saem de casa e deixam Anna e George ainda vivos).

É significativo que Paul e Peter se chamem, mutuamente, Tom e Jerry a certa altura do filme: é mesmo essa cultura de uma (aparente) violência cândida que o filme crítica. Daí que, também significativamente, Paul olhe , diversas vezes, directamente para a câmara e interpele o espectador, perguntando se quer que o espectáculo continue ou quem deve morrer de seguida. Há uma nítida consciência de crítica, de filme empenhado. Ao mesmo tempo, Haneke eleva, quase ao nível do insustentável, a forma como os actores têm que interpretar as suas personagens, algo que terá comparação com alguns dos seus filmes, de que é exemplo notável «A Pianista», com Isabelle Huppert. Este exercício acaba por nos devolver a questão, obrigando-nos a olhar para nós próprios.

Entre 1997 e 2008 há dez anos, mas isso não parece ser tão importante. Desse ponto de vista, o filme ainda faz sentido. Já a troca de actores e “repetição” do filme é mais contestável, já que o filme parece obrigar-se às regras que também combate, já que a violência, na maior parte das vezes, se faz à custa do espectáculo que «Brincadeiras Perigosas» critica (e a razão de ser para a existência do filme é a de “agradar” a uma plateia novo). Nesse sentido, ecoa a questão: será que valeu a pena, em 2007, voltar a rodar um filme igualzinho ao de 1997?

«Brincadeiras Perigosas» («Funny Games U.S.»). Um filme de Michel Haneke, com Naomi Watts, Tim Roth, Michael Pitt e Brady Corbett. Estados Unidos, 2007, Cores, 113 min
Site Oficial: http://wip.warnerbros.com/funnygames/

Serralves escolhe Oliveira

Junho 29, 2008

Não podemos esperar. Serralves estás prestes a inaugurar uma exposição dedicada a Manoel de Oliveira, por ocasião da comemoração dos 100 anos do realizador.

Eis a descrição no site de Serralves:

MANOEL DE OLIVEIRA

12 Jul – 02 Nov 2008 – MUSEU

Esta primeira mostra do trabalho do cineasta no formato expositivo centrar-se-á no modo como Manoel de Oliveira reinventou o cinema através de uma linguagem que lhe é única. Paralelamente está programado um ciclo de cinema, onde serão exibidos no Auditório do Museu de Serralves todos os filmes que Manoel de Oliveira realizou até ao momento.

Comissariado: João Bénard da Costa / João Fernandes
Produção: Fundação de Serralves

Speed Racer

Junho 28, 2008

Speed Racer
o segredo da família
(artigo publicado na edição de Quinta-Feira de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema de imagem real mais infantil de Hollywood sempre foi um cinema muito conformado e conservador, de forma a que estes filmes se tornem os filmes de Domingo à tarde nas televisões generalistas. Aqui em Portugal, esse tipo de filmes é de reconhecimento óbvio, já que os Domingos em família têm obrigatoriamente que passar estas histórias. Ver estes filmes em cinema é, por isso, um exercício penoso, já que as narrativas são amontoados de clichés e estereótipos de como viver em sociedade. Um dos exemplos mais claros deste tipo de cinema estreia hoje nas salas portuguesas e promete ser um dos blockbusters do Verão: trata-se de «Speed Racer», um filme adaptado da série homónima de televisão, realizado pela dupla dos irmãos Wachowsk, os mesmos que foram responsáveis pela trilogia «Matrix».

A narrativa do filme assegura que os objectivos são alcançados: Speed Racer é um corredor jovem, que ainda corre com um carro (o Mach 5) desenhado e construído pelo pai. O negócio, por isso, mantém-se na família. Contudo, a família ainda vive com um choque: a morte do irmão de Speed (Rex Racer), há muitos anos atrás, quando conduzia o seu carro. Speed já se mostra tão rápido como o irmão e, por isso, é aliciado pelas Royalton Industries, uma grande empresa que produz carros e representa corredores. Contudo, Speed quer manter o negócio da família e rejeita a proposta, enfurecendo o dono da empresa. Ao mesmo tempo, a autoridade do Desporto propõe a Speed correr uma mítica corrida (The Crucible) com o propósito de desmascarar as ilegalidades cometidas pela Royalton. Speed irá mostrar que é um piloto fantástico e irá conhecer o Racer X, um estranho corredor que se esconde atrás de uma máscara e que também é um agente da Autoridade do Desporto.

Na verdade, apesar de haver uma tentativa para organizar uma história, «Speed Racer» organiza-se de outra forma: em três grandes corridas distintas (uma no início, outra no meio e uma última no fim. Mas a única ideia que o filme pretende passar é a de que a família é o mais importante, custe o que custar. Nesse sentido, o filme é feito de um paradoxo constante: se, por um lado, há um clara divisão entre bons e maus (aqui personificados pela família/os bons; e as grandes empresas/os maus); por outro lado, «Speed Racer» é feito por uma grande empresa com o único propósito de fazer dinheiro. Nesse sentido, a constante moralidade do filme, colocada sobre o ponto de vista de uma óbvia divisão entre os heróis e os vilões, é questionada sob a forma como é produzida, promovida e vendida aos espectadores. Nada mais paradigmático de uma certa forma de actuação das grandes empresas.

Por isso, é que «Speed Racer» é um vulgaríssimo filme de Domingo à tarde, feito para encher as salas de cinema durante um mês, mas para depois cair no esquecimento. É, pois, um filme infantil, para audiência juvenis e sem quaisquer propósitos de questionamento. Nesse sentido, a moralidade pretende prolongar o “status-quo” da família, o que, em si, é um próprio paradoxo, já que a família Racer é tudo menos uma família equilibrada. Muitas vezes, este álibi da família parece-se com “O Segredo”, esse fenómeno de descoberta da felicidade que, no último ano, tem inundado o mercado cultural. É como se «Speed Racer» prolongasse as ideias substanciais dessa filosofia, a saber: afinal de contas, basta apenas “visualizar” o desejo para o conseguir. Tal como as corridas de Speed, sempre constantes jogos de ilusões sobre os veículos que correm desvairadamente.

Provavelmente, muitos falarão dos “efeitos especiais”, razão máxima para a presença dos irmãos Wachowski no filme. Mas esse é um engano puro. Sim, há muitos efeitos e muito bem feitos, mas esse molde serve apenas para contar a mesma história de sempre. Que desilusão é ver este “cinema”…

«Speed Racer» («Speed Racer»). Um filme de Andy Wachowski e Larry Wachowski, com Christina Ricci, John Goodman, Susan Sarandon e Matthew Fox. Estados Unidos, 2008, Cores, 135 min
Site Oficial: http://speedracerthemovie.warnerbros.com/

O Meu Irmão é Filho Único

Junho 20, 2008

O Meu Irmão é Filho Único

o espírito do tempo
(crítica publicada na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

O cinema italiano é algo bastante obscuro no actual panorama da exibição internacional. Tirando o caso óbvio de Nanni Moretti (que consegue, de facto, que os seus filmes sejam vistos em muitos locais) e de um ou outro exemplo de um inverosímil sucesso (como foi «A Melhor Juventude»), são raríssimos os filmes italianos que chegam até cá. Estreia hoje, contudo, nos nossos cinemas, um novo sucesso internacional italiano: «O Meu Irmão é Filho Único», do realizador Daniele Luchetti. O filme venceu alguns dos Donatellos, os maiores prémios da indústria cinematográfica italiana e esteve presente na secção «Un Certain Règard» do Festival de Cannes. De certa forma, o filme segue algumas das ideias feitas sobre cinema italiano: actores disponíveis, uma história “histórica”, e uma fluência narrativa clara. Como curiosidade, vale a pena lembrar que os guionistas deste filme são os mesmos autores do guião de «A Melhor Juventude».

A narrativa do filme segue a história de uma família numa pequena cidade italiana dos anos 60. Na verdade, o filme concentra-se em Accio, um irrequieto miúdo que cresce na percepção de que ninguém quer saber dele. Na fase da adolescência tardia, Accio inscreve-se mesmo num partido fascista, o que vai em confronto com a tendência comunista da família: Manrico, o seu irmão mais velho, já milita no PC italiano e lidera os movimentos contra a exploração dos trabalhadores fabris. Entretanto, os dois crescem num ambiente de mútua confrontação. Para além disso, Manrico é mulherengo e bonito e Accio não parece ter nenhuma amizade, para além do partido. Manrico namora com Amélia (com quem terá um filho), de quem Accio também gosta. Com o crescimento de Accio, este torna-se menos vulnerável, chegando a romper com o partido fascista. Será neste contexto, portanto, que o filme se coloca: as personagens confrontam-se com o seu tempo e este deixa-lhes marcas evidentes.

«O Meu Irmão é Filho Único» tem características óbvias de filme histórico: isto é, coloca-se num tempo bastante icónico e faz com que as personagens se movimentem dentro dele. Contudo, aquilo que o filme faz melhor é transformar as personagens em pessoas verdadeiras, que têm complexidade e contradições. Essa mais valia (que, é certo, se torna óbvia no tempo histórico do filme) faz com que se acredite mais nestas personagens, porque não são previsíveis. Para além disso, o filme tem uma narrativa serena, que apenas explode no final, quando Manrico é assassinado. Nesta forma, conseguimos perceber melhor as nuances da época, de ver a maneira como todos viviam acima das expectativas, criando, a todo o custo, acontecimentos para fazer vincar o ponto de vista (como os fascistas fazem ao queimar os carros dos comunistas). Talvez esteja clareza narrativa a crítica do próprio filme, já que as elipses que o filme constrói a partir da segunda metade fazem com que seja menos complexo aquilo que se passa com as personagens.

Contudo, o ponto de vista cinematográfico do realizador obriga a câmara a aproximar-se das personagens, optando por um movimento livre, que deixa os actores improvisarem, mostrando, assim, os sentimentos voláteis. Esse lado “à flor da pele” é o que faz o espectador aderir a «O Meu Irmão é Filho Único», algo que é muito ajudado pela banda sonora: sucessos italianos da época, que, à distância, parecem verdadeiros sinais dos tempos. É claro que o filme acaba por ser um filme datado, mas a convulsão dos anos 60 e 70 também permite ver as personagens e sentir nelas que esse espírito do tempo é só uma forma de as personagens viverem. Por outro lado, os sentimentos serão sempre iguais, apenas com desafios exteriores diferentes. É nesta amálgama que «O Meu Irmão é Filho Único» tem as suas principais qualidades.

«O Meu Irmão é Filho Único» («Mio Fratello è Figlio Unico»). Um filme de Daniele Luchetti, com Elio Germano, Riccardo Scamarcio e Angela Finocchiaro. França/Itália, 2008, Cores, 108 min.
Site Oficial: http://www.mybrotherfilm.co.uk/

Alexandra

Junho 13, 2008

Alexandra
o pó da guerra
(artigo publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Em 1997, saí do cinema extasiado (ainda me lembro: foi na sala de cinema que eu mais gostava, o Nun’Álvares). Acabara de ver a descoberta de um grande filme, que era, ao mesmo tempo, a descoberta de um autor. Era uma espécie de lição poética do cinema, algo que, mais tarde, percebi ser de longa tradição no cinema russo (era, portanto, um filme filiado nessa tradição). Tratava-se do maior sucesso, à data, do realizador Aleksandr Sokurov e o filme era o magistral «Mãe e Filho». Depois, o realizador tornou-se mais presente nas salas portuguesas, assinando uns filmes tão bons e outros menores. Mais tarde, Sokurov voltou com outro filme-limite: «A Arca Russa», filme-acontecimento filmado num único plano-sequência no Museu Hermitage. Contudo, esse filme nunca chegou a ter uma verdadeira estreia comercial em Portugal (apenas passagens pontuais em ciclos especiais). Foi com este historial que voltei ao seu cinema, agora com a estreia do seu último filme, «Alexandra», que chega a Portugal com mais de um ano de atraso (esteve presente na edição de 2007 de Cannes).

«Alexandra» é um pequeno filme de Sokurov, que segue, na sua narrativa, a viagem de Alexandra, uma velha senhora russa, que visita o seu neto num campo militar na Chechénia. Alexandra viaja com os soldados num comboio militar e, já no campo, visita atentamente todos os seus lugares mais escondidos, onde descobrirá a forma pouco higiénica com que os soldados vivem. O seu neto mostrar-lhe-á alguns desses locais, nos tempos mortos em que não está em serviço. Mas Alexandra terá também tempo para visitar o mercado da aldeia mais próxima e privar, ao nível dos olhares, com os seus habitantes. É, pois, na descoberta desse mundo novo que o filme se coloca perante o olhar de uma velha anciã russa.

Não há dúvida que o filme tens as marcas mais evidentes do cinema de Sokurov: uma atenção visual pelo real, pelas cores e pelos cheiros que se sentem naquele microcosmos de guerra. Nesse sentido, mais uma vez, este parece ser um filme antropológico, num sentido muito humanista: o que interessa ao realizador é que as personagens sejam verídicas, que sintam o cansaço nas pernas e o calor que o filme transparece. Nesse sentido, as personagens de Sokurov são um espelho para o espectador, que deve sentir essa latência que salta da película. Apesar disso, o filme é bastante diferente de «Mãe e Filho», sobretudo na sua ligação com o real. Em «Alexandra» tudo converge para a situação política, mesmo que apenas subtilmente, ao nível dos diálogos, isso seja aludido (já que visualmente será demasiado óbvia a destruição que veremos na aldeia).

Nesse sentido, vale a pena recordar que o filme foi rodado na própria Chechénia (ao contrário da maior parte dos filmes que abordam o conflito, que filmam em lugares visualmente semelhantes), sob dificuldades logísticas. Para além disso, a protagonista, Alexandra, é interpretada por um diva da Ópera Russa, Galina Vishnevskaya. Algo que só pode ser marcante, em todo o contexto narrativo do filme: uma avó que visita o seu neto perto do local de guerra e nota nele um mudança de atitude, uma única propensão para a guerra, ele que já não sabe quantas pessoas matou.

Enfim, Sokurov volta em «Alexandra» a dar um tom poético, mas aqui esse tom é, sobretudo, encontrado no próprio ritmo narrativo. Neste filme, a tonalidade visual é, por outro lado, bastante realista, dando a ver o pó e a areia que anda sempre no ar, contaminado os corpos nus dos soldados. Há, por isso, uma consciência clara de que a guerra interminável da Chechénia é ainda um indício de vergonha para o governo russo e para a consciência mundial. Ao seu estilo, Sokurov mostra-nos as marcas e as rugas que essa guerra já causou. No lado checheno, mas também no lado dos soldados russos. Porque a guerra altera sempre todos os que estão envolvidos nela.

«Alexandra» («Aleksandra»). Um filme de Aleksandr Sokurov, com Galina Vishnevskaya, Vasily Shevtsov e Raisa Gichaeva. França/Rússia, 2007, Cores, 90 min.
Site Oficial: http://www.sokurov.spb.ru/

«Sexo e a Cidade»

Junho 6, 2008



um pouco mais do mesmo…

(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

Há cerca de dez anos atrás, uma estação de cabo americana dava os primeiros passos para a transformação radical do panorama televisivo. Tratava-se da HBO e produzia, por aqueles tempos, séries como «Sete Palmos de Terra» (2001) ou «Os Sopranos» (1999). Desses marcos transformadores da linguagem televisiva, apareceu também «Sexo e a Cidade» (aliás, previamente às anteriores, em 1998). No conjunto, estas três séries (e outras que lhes seguiram) traziam uma nova abordagem temática e cinematográfica à forma como se fazem as séries de televisão. É na consequência óbvia do sucesso de «Sexo e a Cidade» que surge, nas nossas salas, o mais do que esperado filme a partir da série, com o título homónimo. Depois de algumas complicações (sobretudo devido às negociações com Kim Cattral/Samantha, que protelou o filme durante três anos), o criador e realizador da série, Michael Patrick King, consegue assinar a realização do filme. Na verdade, como muitos esperarão, a película segue fielmente a lógica da série, agora encurtada para “caber” no filme de duas horas.

A narrativa – mais uma vez iniciada e contada pela voz de Carrie – apanha as quatro protagonistas num patamar diferente da vida: todas elas estão agora apaixonadas e a viver com os seus respectivos homens. Por um lado, Charlotte e Miranda casaram e tiveram filhos (a de Charlotte é adoptada); por outro, Samantha vive agora em Los Angeles com um actor de Hollywood (sendo a sua agente). Finalmente, Carrie juntou-se com Mr. Big, o eterno e adiado amor da série de televisão. Na verdade, o filme começa com a sua decisão em se casar. Contudo, Mr. Big/John acaba por deixar Carrie pendurada no dia de casamento. É a oportunidade para o filme dar um longo tempo para a recuperação emocional de Carrie e a respectiva reconciliação com Mr. Big. Durante esse tempo, veremos as voltas que as vidas das suas três amigas dão.

Como se pode ver pela sinopse linear, «Sexo e a Cidade» acaba por ser estruturado como um típica comédia romântica. Contudo, a forma mais “dramática” como o filme é colocado acaba por desfavorecê-lo, já que se torna demasiado previsível. Nesse sentido, tudo se encaminha para a resolução (com mais ou menos tempo para “recolocar” as personagens na rota das outras), algo que é dramaticamente castrador de alguma ambivalência que a série de televisão produzia. A série, no advento no século XXI, apostava naquelas quatro personagens como representantes de uma certa cultura urbana nova-iorquina, com as suas formas múltiplas de relacionamentos. O filme, contudo, com o argumento de que as personagens “estão mais velhas” torna-as mais previsíveis e, por isso, menos interessantes. Não é que seja menos “realista”, mas é bem menos problemático. E sem um “bom problema” o filme também perde.

Ainda assim, todo o look da série se mantém, com as cores bem atraentes dos vestidos mais improváveis que as quatro mulheres vestem. Nesse sentido, este «Sexo e a Cidade» continua óptimo, com uma panóplia de guarda roupa impressionante e nunca deixando as personagens vestir roupas “menores”. Sente-se também que esta é uma versão mais «light» da série – talvez para ficar conforme uma faixa etária mais comercial – abdicando de algumas cenas mais «picantes», que, mesmo assim, ainda aparecem. Em conclusão, como o formato de comédia romântica não é alterado, o filme fica bem menos interessante. Sobretudo por isso, soa a uma oportunidade perdida para poder rever a confusão sentimental que a série convocava.

«Sexo e a Cidade» («Sex and the City»). Um filme de Michael Patrick King, com Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Kristin Davis e Cynthia Nixon. Estados Unidos, 2008, Cores, 148 min.
Site Oficial: http://www.sexandthecitymovie.com/

Queremos a Cinemateca Nacional no Porto também…

Junho 2, 2008

Assine e divulgue a petição! Nós já o fizemos.

http://www.petitiononline.com/Circuito/petition.html

«Terra dos Bravos»

Maio 30, 2008

o fim dos heróis
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

A vaga de filmes americanos a ocupar-se da guerra no Iraque foi grande acerca de um ano atrás. Alguns desses filmes chegaram à exibição em Portugal, como o documentário de Michael Moore «Fahrenheit 9/11» ou a ficção de Brian De Palma «Censurado». O ponto de vista crítico sobre a guerra sempre foi uma constante nestes filmes, devido, sobretudo, a uma Hollywood sempre liberal. Chega-nos agora às salas um filme produzido em 2006 que se ocupa também da Guerra do Iraque e, sobretudo, das consequências posteriores dessa guerra. Trata-se de «Terra dos Bravos», do americano Irwin Winkler, um realizador de poucas longas-metragens, que tem estado ligado à produção. O filme é um exercício ambíguo sobre o que a guerra faz aos soldados e a forma como desorienta o seu futuro.

A narrativa segue a vida de quatro soldados no Iraque: Will, Vanessa, Jamal e Tommy. Prestes a regressarem a casa, os soldados acabam por cair numa emboscada, quando estavam numa missão de socorro. Essa emboscada tem consequências brutais para todos eles, desde a perda de um grande amigo (Tommy), até à mão que fica decepada (Vanessa). É, talvez, o culminar de muitas violências físicas e psicológicas de quem nunca está preparado para enfrentar a guerra. Depois dessa sequência inicial, o filme dedica-se à história dos quatro soldados no regresso a casa e à América: Vanessa tem que aprender a viver com uma mão de prótese; Tommy não consegue ultrapassar a morte do seu amigo mais íntimo; Jamal é presença regular num hospital militar e psiquiátrico; e Will, médico, não consegue voltar a encaixar na sua família e torna-se alcoólico.

A construção narrativa de «Terra dos Bravos» parece decidir-se em opor-se à guerra, mostrando as sequelas com que os soldados são obrigados a voltar para casa. Contudo, ao filme falta muita coisa para além dessa aparente oposição. Por um lado, o cinema está repleto de filme sobre ex-soldados com resultados extraordinariamente melhores. Para este caso, a lógica cinematográfica é totalmente desprezada, conduzida anonimamente como se o filme fosse um vulgar telefilme de uma televisão por cabo. O que é mais irritante, é, sobretudo, a forma como Irwin Winkler monta o seu filme, usando e abusando de clichés como os slow-motion ou o campo/contra-campo banal. Não é o uso estrito dessa linguagem que se critica, mas a forma como é usada: vulgar e menor.

Dessa linguagem irregular resulta um filme sensaborão, onde até o happy-end parece forçado, como se estes soldados descobrissem, de repente, a forma de conseguir fugir aos fantasmas. Nesse sentido, o filme também abusa das elipses, como se elas fossem o único meio de mostrar a evolução das personagens. Até Christina Ricci aparece a fazer um papel que dura apenas 15 minutos. Falta quase tudo para «Terra dos Bravos» ser um filme interessante e era bastante dispensável a sua estreia nas salas portuguesas.

«Terra dos Bravos» («Home of the Brave»). Um filme de Irwin Winkler, com Samuel L. Jackson, Jessica Biel, 50 Cent e Christina Ricci. Estados Unidos, 2008, Cores, 105 min.
Site Oficial: http://www.mgm.com/sites/homeofthebrave/

«Angel»

Maio 23, 2008

perto do paraíso
(texto publicado na edição de ontem de «O Primeiro de Janeiro»)

O talento cinematográfico de François Ozon tornou-o num dos casos mais “estranhos” e extraordinários do cinema francês actual. A estrela de Ozon é, sobretudo, reconhecida pela sua capacidade de re-inventar os géneros clássicos do cinema. Nesse sentido, Ozon sempre foi um praticante de um certo meta-cinema, capaz de incessantemente se interrogar sobre os códigos da linguagem cinematográfica (estão nesta categoria filmes como «8 Mulheres», «5×2» ou «Swimming Pool»). Para além disso, o realizador também trabalhou sobre filmes mais convencionais como «Sob a Areia» ou «O Tempo que Resta». Chega agora a Portugal, com considerável atraso, o seu último filme, «Angel», que esteve presente no Festival de Berlim em 2007. O filme é, mais um vez, uma forma de Ozon voltar a trabalhar sobre o género e, desse forma, construir uma narrativa bastante intrigante.

A história do filme centra-se na Inglaterra do início do século XX e em Angel Deverell, uma rapariga obstinada e ingénua, que acredita no seu talento literário. Esse talento é reconhecido por Théo, um reputado editor londrino que faz dos livros de Angel grandes sucessos de vendas. Angel torna-se rica e acaba por comprar uma mansão com que sonhara na infância: a «Paradise». Para além disso, Angel apaixona-se por Esmé, um pintor frustrado e boémio, que aceita casar com ela. A irmã de Esmé, Nora, também viaja para a mansão, como secretária da escritora. Contudo, a história é quebrada pela I Guerra Mundial, para a qual Esmé se alista. Durante o período de guerra, Esmé volta a Londres, mas sem Angel saber, para se encontrar com um velho amor. Quando, finalmente, Esmé volta, com uma perna amputada, tudo piora. Ele não aceita a sua condição e acaba por suicidar-se. Será a vez de Angel descobrir a verdade e acabar por “morrer de amor”.

Ozon é um mestre no jogo dos género e, em «Angel», parece estar sempre a lembrar-nos disso, mas constantemente a enganar-nos. As sequências sucedem-se de forma a criar uma expectativa, uma necessidade de “prever” o que vai acontecer, mas o curso da história acaba por ser o mais linear possível, muitas vezes frustrando-nos e outras dando-nos aquilo que queremos. Contudo, essa forma de estrututura cinematográfica acaba mesmo por minar, constantemente, as expectativas do espectador. É por isso que Ozon está sempre a jogar connosco. O que, por vezes, acaba por ser demasiado óbvio.

Do ponto de vista cinematográfico, Ozon cola-se totalmente ao cinema clássico de Hollywood e a Hitchocock: toda a construção visual acentua as cores e a montagem é clássica, com sobreposições e artifícios ultrapassados (por exemplo, Ozon usa, nas cenas de automóvel, um ecrã atrás do carro para simular a paisagem). Nesse sentido, o filme é construído como pressuposto de jogar com os cânones do cinema clássico e, dessa forma, fazer uma nova leitura. Se, por um lado, há uma vertente de homenagem, por outro, o filme contamina-se com uma ilusão de realidade: diversas vezes Angel menciona o seu “sonho”, se é realidade ou não o que está a viver. Essa ilusão é, talvez, a melhor forma de olhar a história, de ver nela uma ideia de cinema.

Em «Angel», por isso, Ozon continua a forçar o seu estilo de cinema, a levá-lo mais longe, embora esse dispositivo seja, na maior parte das vezes, demasiado visível (e previsível), o que torna o filme menos “pertinente”. Apetece pedir, por isso, que Ozon volte aos seus filmes “franceses”, como «Sob a Areia» ou «O Tempo que Resta».

«Angel – Encanto e Sedução» («Angel»). Um filme de François Ozon, com Romola Garai, Sam Neill, Lucy Russell e Charlotte Rampling. Bélgica/França/Reino Unido, 2007, Cores, 134 min.
Site Oficial: http://www.angel-lefilm.com/