Artigo publicado no Voz Portucalense de 4/1/2001, da autoria de Joaquim Armindo

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UMA MULHER!

E Jesus disse que aquela viúva, tinha dado apenas duas pequenas moedas, tudo o que tinha, enquanto os ricos lançavam muitas moedas, era a que tinha oferecido muito mais ao Tesouro do Templo (Marcos 12,41).
Ao reler esta perícopa refleti, naquela mulher, Perpétua Ruas, que há semanas foi a enterrar, em Vila Nova de Gaia. Sempre a conheci, tinha quatro filhos e um marido que termia as mãos, todos os minutos, e por isso não trabalhava, era doente. Esta mulher, já com mais de noventa anos, deu tudo o que tinha, à sua família pobre, até à avó, que também vivia naquela casa, à rua Diogo Cassels, e que já não existe. Trabalhava todo o dia, provavelmente vinte e quatro horas, porque mesmo a dormir, tinha que pensar no pão do dia a dia. De amanhã quando entrava naquela casa, eram tempos em que as portas estavam sempre abertas, via a avó a aquecer-se num aquecer redondo, de serrim, na cozinha, eu lá ia para a sala chamar o filho mais velho, o Quim, agora o Professor Doutor Gonçalves Guimarães, da Casa do Solar dos Condes de Resende, para irmos brincar e apanharmos pelo chão pedrinhas, que eram a nossa riqueza. A mãe já tinha saído, para trabalhar, naquelas caixinhas de cartão, onde se colocavam as pomadas. Era o seu modo de vida, o que lhe dava, para sustentar a família, incluindo uma das filhas de mobilidade condicionada. Eram tempos difíceis, as ajudas que recebíamos eram os leites em pó enlatados e o queijo, que vinham “lá de fora”, para ajudar a matar a fome.
Foi neste cenário que Perpétua Ruas, subia e descia até Cândido dos Reis, onde ganhava o pão nosso de cada dia, com uma força, dignidade e capacidade, fora do comum. Ela deu de si, tudo o que possuía, moedas magras, mas sabia gerar muito. Aquela casa era de amor, de muito suor, compreensão e simpatia. Quem chegasse tinha lugar à mesa, mesmo com o miserável ordenado. Ela descobriu cedo o Reino de Deus, porque confiava, deu-se à causa de uma família desprotegida, mas de caráter. Seus filhos, netos e bisnetos, bem podem considerar esta mulher, como um prodígio criado “à imagem e semelhança de Deus”. Aí está uma viúva, ficou neste estado passados alguns anos, que no Templo do Senhor, os corpos de seus filhos, colocou as magras moedas que tinha, e do pouco muito fez. A lição mais linda que uma mulher cristã pode dar a todos nós.
Muitos morrem, e são noticia, pelo exercício do seu poder, que até pode ser meritório, mas muitas mais mulheres e homens, são como Perpétua Ruas, que não têm noticias, porque afinal ainda existem pessoas com esta grandeza, e como a viúva do Evangelho lançam tudo o que têm, mas todos vêem os benfeitores, que colocam no Tesouro do Templo, aquilo que não lhes custou a ganhar. Perpétua Ruas deu o todo do seu ser, tem de ser lembrada, mesmo numa crónica humilde como está é.
Obrigado Perpétua Ruas, pelo exemplo e coragem! Está já junto do Senhor!

Joaquim Armindo

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