Artigo publicado no Jornal Primeira Mão, da autoria de Joaquim Armindo

by

DEMOCRATIZAR A DEMOCRACIA

 

O excelente livro de Boaventura Sousa Santos, “Ensaio Contra a Autoflagelação”, vem colocar a questão que está acima de todas as “crises-de-dinheiro”, porque se baseia nas pessoas. Hoje em Portugal, como em vários países, dizem-nos que são necessários sacrifícios, que as contas públicas têm uma enorme quantidade de euros, em défice, tantos milhões, que nós habituados a pensar em escudos, nem sabemos muito bem quanto é!  Ora, este não é o epicentro da questão, porque esse fala-nos na ética e na solidariedade, e os mil milhões todos, não têm isso em consideração, esses contadores de notas estão preocupados com as centenas de milhares de desempregados, com os doentes que não podem pagar as consultas e os medicamentos, com aqueles que cada vez mais vão à sopa dos pobres, mesmo sendo da classe média, com os que têm fome e sede, com os que roubam, e nunca pensaram em fazê-lo, com os que dormem nas ruas, com os que já não possuem proventos para pagar a prestação da sua “casita”, com o povo adormecido por uma democracia faminta de lugares adquiridos à custa de favores, não esclarecidos?

É urgente democratizar a democracia, tal como diz o autor do livro citado, “nos últimos trinta anos a exploração desenfreada dos recursos naturais nos fez perder a biodiversidade, também a monocultura do neoliberalismo e da democracia eleitoral nos fez perder a demodiversidade.” Estamos a viver numa democracia arcaica, que não dá voz, nem vez, aos homens e às mulheres, porque enfeudada numa democracia representativa, e que não dá contas a ninguém, exceto nas parangonas das promessas eleitorais, que todos sabemos não se cumprem e mente-se. Democratizar a democracia é dar voz, dar vez, é a participação dos cidadãos nas decisões importantes, como refere o autor a “democracia representativa transformou-se num obstáculo à democratização do mundo” ao assumir-se como única forma legítima de democracia. A indignação pública é um direito de qualquer cidadão, principalmente dos injustiçados, dos que morrem com fome de pão, de justiça e de paz.

As coisas não se resolvem com impostos sucessivos, dantes chamados PEC, hoje Medidas, com reduções salariais, com desinvestimento público, mas com a coragem da solidariedade e do bem comum. Pela primeira vez ouvi o ridículo dum “imposto de solidariedade”, que queiram pagar os débitos dos nossos irmãos madeirenses, depois das investidas dos senhores da Ilha, então digam-nos, mas não nos façam de parvos, expliquem onde estão as causas e deixem-nos falar, com a raiva da fome e da sede. O nosso falar, a nossa angústia, a nossa profecia, a nossa denúncia, estão patentes, nessa indignação, não contra ninguém, mas sim pela democracia participativa, os cidadãos são a parte importante de todo o parlamento nacional, do todo, que sobre a bandeira verde rubra, cobre o nobre povo e a nação valente. Os anos que aí vêm são difíceis e dramáticos, dizem-nos, como outros nos disseram antes, com as mesmas palavras de salvação, mas não nos falam da ética, dos valores, da solidariedade e do bem comum, porque para isso teríamos que participar ativamente na construção da democratização do mundo, e nós veleiros em mares encapelados saberíamos traçar o caminho, não precisando da massa cinzenta que abandonando o país, regressa para o sufoco das nossas vozes.

Afinal que alterações temos? O mesmo discurso, agora eivado do liberalismo mais feroz, que nos tira a voz, pois já enrouqueceu, de tanto reclamar, e não ser entendida pelos senhores do poder e do dinheiro. Não estamos à venda, temos a dignidade de ser pessoas que pensam e que vivem, somos governadores das nossas casas e sabemos bem o que devemos gastar ou não gastar, e se quem tem a mercê de dirigir, os lideres!, não consegue descortinar os apelos de quem começa a não ter sequer o que matar a fome, então digamos aos senhores que estamos indignados, com os Miguéis de Vasconcelos tão céleres nas promessas, como no seu não cumprimento.

Democratizar a democracia é necessário, por isso erguemo-nos, numa indignação perante o absurdo dos números, que nunca baixam, para nossa angústia e poderio de outros minoritários, mas como sempre o nosso Povo saberá responder, sem indiferença, mas, como sempre, com as armas cuidadas de cidadãs e cidadãos, que respeitam, que não os respeita!

 

Joaquim Armindo

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s


%d bloggers like this: