Pela Tarde Dentro: Lembramos os 100 anos de Fialho de Almeida

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https://i0.wp.com/www.vidaslusofonas.pt/FIALHO_FR.jpgEmbora seja mais conhecido pela sua faceta de cronista panfletário, Fialho de Almeida é um admirável contista, tendo legado à literatura portuguesa algumas das mais belas páginas que nesse género se escreveram (como, por exemplo e entre muitos outros, A Ruiva, O Sineiro de Santa Ágata ou O violinista Sérgio num café da Mouraria, texto com que abre um dos panfletos do primeiro volume de Os Gatos). . Porém, usando sempre de uma extrema exuberância verbal, atinge esses momentos de grande beleza estilística, para logo a seguir usar uma linguagem eivada de galicismos (como diz Brandão, talvez apenas para seduzir alguns seus epígonos de café, os tais «noctâmbulos» que o escutavam e admiravam?). Por outro lado, alguns escritos seus raiam mesmo os limites do mau gosto e da grosseria (o que ocorre, nomeadamente, em numerosos textos de Os Gatos).
Como ele próprio reconhece, é um «prosador colérico», um crítico demolidor, impiedoso e, por vezes, excessivo e injusto. Terá sido o caso da sua polémica com Eça de Queirós. Costuma dizer-se que os críticos literários mais severos e implacáveis foram ou são, em geral, escritores frustrados. Esta, como todas, é uma generalização abusiva, pois Fialho deixou-nos das mais belas páginas da literatura do seu tempo, nomeadamente alguns dos seus contos. Não nos legou, porém, um só romance. As tentativas que fez nesse sentido saíram frustradas. Terá essa circunstância algo a ver com a violência com que analisa Os Maias? Em jovem é um profundo admirador de Eça. Diz da grande, da profunda impressão que lhe causou, aos 16 anos, a leitura da primeira edição de O Crime do Padre Amaro. Mais tarde faz também uma defesa de O Primo Basílio, face aos que acusam a obra de imoralismo. É relativamente a Os Maias que a sua veia de «prosador colérico» abafará a admiração antes sentida. Numa crítica publicada em O Repórter em 20 de Julho de 1888 (mais tarde incluída no volume Pasquinadas) considerará o romance um «trabalho torturante, desconexo e difícil de um homem de génio que se perdeu num assunto, e leva 900 páginas a encontrar-lhe saída.» Na sua opinião, Os Maias não passa de «um livro estrangeiro, que não conhecendo da vida portuguesa senão exterioridades, cenas de hotel, artigos e jornais, e compte-rendus de reporters palavrosos, desatasse a apreciar-nos através de três ou quatro observações mal respigadas, e a inferir por intermédio da fantasia satírica, tudo o mais.»
Eça, em carta ao jornalista Mariano Pina, datada de 27 de Agosto de 1888, desvaloriza a crítica: «O artigo do Fialho – est tout à coté. Quero dizer, dá grandes golpes, mas caem ao lado do livro e fora do livro – nenhum sobre o livro. Criticar o livro, como ele faz, não pelo que é, mas pelo que devia ser – é ridículo.» Noutra carta, datada de 8 de Agosto do mesmo ano, esta endereçada ao próprio Fialho e respondendo à acusação de, naquele romance, ter utilizado personagens caricaturais, estereotipadas, decalcadas de outras suas, afirma: «Em Portugal há só um homem – que é sempre o mesmo ou sob a forma de dândi, ou de padre, ou de amanuense, ou de capitão: é um homem indeciso, débil, sentimental, bondoso, palrador, deixa-te ir; sem mola de carácter ou de inteligência, que resista contra as circunstâncias. É o homem que eu pinto – sob os seus costumes diversos, casaca ou batina. É o português verdadeiro. É o português que tem feito este Portugal que vemos.»

BALANÇO DE UMA CARREIRA

Caricatura de Fialho de Almeida encontrada em Cuba (Alentejo) Se existem autores de difícil rotulação, Fialho de Almeida é um deles. Geralmente definido como um decadentista, mercê das múltiplas contradições que foi exibindo, percorreu toda uma paleta de estilos, situando-se, no que à sua obra mais válida diz respeito (os seus contos), numa plataforma realista-naturalista, subsidiária das correntes francesas do seu tempo, mas também de alguns dos próceres da chamada Geração de 70, incluindo o seu «odiado» Eça. Devendo muito, sem dúvida, a Camilo. Fazendo um balanço do seu percurso, ouçamos novamente Fialho na Autobiografia: «tendo escrito cerca de mil e trezentas páginas por ano, o que representa uma actividade rara num país onde a bagagem literária é um livro de versinhos e meia dúzia de artigos laudatórios, apenas consegui, na opinião dos meus contemporâneos, “arranjado” a reputação de um desequilibrado indolente, que arma à sensação por via do galicismo, e a de prosador colérico, proibido do sucesso pelo mau sestro de não poder ser lido por senhoras. Dos resultados materiais do meu trabalho acérrimo, baste a V. saber que nem logro auferir da pena o sustento necessário, ganhando menos que um carpinteiro ou um pedreiro, e tendo de resignar os meus gastos a condições de parcimónia de que só eu sei o mistério, e perante as quais forçoso me foi abdicar de todas as aspirações e vanglórias que entram pelo meio na confecção da alegria, e são neste mundo o factor principal da felicidade.» Quando se refere aos escritores sem obra, está por certo a lembrar-se do seu amigo, e inimigo de estimação, Gualdino Gomes. Sobre este último diz Raul Brandão: «A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. […] só escreveu três folhetos e por aí ficou o seu talento. Espremido, não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã, dispersando com ele o oiro da sua esplêndida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras.» E conta depois Brandão como uma noite, à mesa do café, Gualdino aludiu à sua obra, ao que Fialho terá ironizado: «– A tua obra bem sei… Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.» Gargalhada geral, Gualdino Gomes embatucou e calou-se. Porém, pouco depois, aproveitando uma pausa na conversa, desferiu a sua estocada, aludindo ao casamento de conveniência que, tempos antes, Fialho fizera com uma parente rica: –« Ó Fialho, fazes o favor de me dizer que horas são… no relógio do teu sogro?.»6 Na realidade, em 1893, Fialho casa com uma senhora abastada, ainda sua parente que morre vítima de tuberculose menos de um ano após o casamento legando-lhe uma apreciável fortuna. O escritor converte-se então num pequeno proprietário rural. É um Fialho aburguesado, distante do iconoclasta, do anarquista que verberara todos os poderes, que se deixa mesmo seduzir pelas lisonjas do ditador João Franco e se torna num defensor da política franquista que, mercê dos seus erros de governação, vai motivar o Regicídio e abrir de par em par as portas à República. O escritor dedica-se à lavoura, viaja um pouco pelo estrangeiro. Desprezado, vê-se obrigado a refugiar-se na vila de Cuba. Mas nem aí irá ter paz.
O FIM – «FALANDO SOZINHO, COMO UM CONDENADO»
Fialho de Almeida morre em 1911 em Vilar de Frades. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a TÁBUA CRONOLÓGICA


Fialho de Almeida

«Quantos Fialhos, todos diferentes, tenho conhecido pela vida fora!», diz Raul Brandão. E continua: «Este, de ventre e barbicha de bode, esta figura de que os mortos se conseguiram apoderar, agarrado à terra, conservador, discutindo com o padre da freguesia os melhoramentos da sua igreja, este é – enfim! enfim! – o descendente autêntico dos cavadores alentejanos. Custou… As suas melhores obras – as que sonhou e nunca se resolveu a escrever – leva-as ele para a cova… De quando em quando ainda tem uma revolta: – É horrível a vida na aldeia. Se não fossem os livros, já me tinha suicidado. Cada vez preciso mais de ver gente e desta vida artificial de Lisboa. Na aldeia, em Cuba, não falo com ninguém, não tenho ninguém com quem comunicar. São de bronze aqueles filhos da p…! E nem a mais pequena sombra de sensibilidade. E se imaginam que a gente não tem dinheiro, estamos perdidos!… – Fuja. – Não posso. Quem me há-de tratar daquilo? E, depois, criei interesse às oliveiras que plantei, à vinha… Ah, mas as noites!… Tenho noites em que pego num livro e saio. Há uma estrada em volta de Cuba – e eu ali ando à roda, toda a noite, a falar sozinho como um condenado!»7
Entretanto a República é proclamada e Fialho, que, exceptuando o curto período da sua sectária e fútil adesão ao franquismo, outrora tanto e tão acerbamente criticara a moribunda instituição monárquica, não se dá melhor com o novo regime. As suas aceradas e felinas garras continuam a arranhar – agora a sensível pele da jovem República, a republiqueta, no seu peculiar dizer: «Dada a ignorância e o desmazelo relaxado, que foi o que a Monarquia legou às classes médias, dadas as tendências vaziamente exibicionistas, que foi o que o partido republicano deu às multidões, a República, como forma de governo, há-de reproduzir todos os fracassos da Monarquia… Na essência, o País ficará o mesmo. Que digo eu? Ficará pior.»8 Não é por isso de estranhar que fanáticos paladinos do barrete frígio, juntamente com alguns «republicanos de 11 de Outubro», lhe caiam furiosamente em cima. Conta Raul Brandão: «Morreu anteontem, em Cuba, o Fialho de Almeida. Diz-se por aí que se suicidou. Duvido. Sei que sofria do coração e que ultimamente vivia num sobressalto porque todos os dias recebia cartas anónimas por causa dos artigos que escrevia para o Brasil. Queixava-se amargamente «desta republiqueta». Quando vinha a Lisboa, passava as noites no Coliseu, acompanhado pelo padre Sena Freitas, ambos entusiasmados com os palhaços. Previu talvez a morte. “Ao contrário do que se pensa sou um perpétuo enfermo de neurastenia e males crónicos. Agora mesmo eu atravesso uma crise tão difícil que chego a pensar se resistirei a ela ainda algum tempo. Aos meus antigos males junta-se agora o coração, que não funciona bem, e a angina pectoris, que ronda à espreita da primeira ocasião” (Carta de Fialho a Coelho Neto): Apressaram-lhe a morte? Há quem diga, peremptoriamente, que sim, com a intimação de que se calasse, senão que o punham na fronteira…9
Numa carta enviada por esta altura por Fialho e publicada pelo Correio da Manhã, do Rio de Janeiro (também transcrita por Brandão nas suas Memórias), confirma-se que o autor de Os Gatos vivia intensamente este problema: «Foi acordado que, se as minhas correspondências para o Correio da Manhã continuarem a referir-se desagradavelmente para a República, eu serei convidado a ausentar-me por algum tempo. “Isto é categoricamente oficial.” Agora devo convidar também V.Ex.a a ler o bilhete que incluso remeto, e me foi remetido de Lisboa por um amigo íntimo que priva quotidianamente com membros da colónia brasileira de Lisboa e da colónia de portugueses, antigos negociantes no Brasil. Por esse bilhete e pela feição grave que a intolerância jornalística está tomando em Lisboa (e no resto do país seguir-se-á) eu delibero por agora, até à reunião das Cortes, ou ao estabelecimento da normalidade, abster-me de me ocupar completamente da política portuguesa. Tenho uma pequena casa agrícola de que viver; e que não marcha (pelo reduzida e modesta que é) sem a minha administração directa. Tenho aqui, no Alentejo, um irmão meio louco e profundamente enfermo de que não posso separar-me.[…] Resolvo escrever cartas sobre todas as matérias que não contendam com a política da República, e ignorar esta, até que um dia em que a minha desforra chegue, e mui pela certa chegará. V.Ex.a exporá o conteúdo desta redacção do Correio da Manhã, e ela responderá se está de acordo com a minha forçada resolução:»
Fialho de Almeida, no dizer de Óscar Lopes, principal documento da formação do estilo decadente na nossa literatura e o mais importante prosador na transição entre os séculos XIX e XX, morre em 1911 na sua Vilar de Frades natal e vinte anos depois os seus restos mortais são trasladados para um jazigo próprio no cemitério da alentejana vila de Cuba.

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