Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas:O credo da “economia da oferta”

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O credo da “economia da oferta”

Num blogue do Jornal de Negócios, “75% dos leitores diz que a austeridade é mesmo necessária”. Aqui está um indicador da hegemonia que a “macroeconomia das trevas” exerce na mente dos cidadãos.

O argumento de Álvaro Santos Pereira (ASP) é duplamente revelador. Diz que “A austeridade é necessária mas não suficiente”. Diz que é necessária “para combater os desequilíbrios das contas públicas e o endividamento exterior.” Porém, conclui o depoimento (nº 5) dizendo que, estando a austeridade a ser aplicada a “conta-gotas” e “sem políticas que ajudem a economia a recuperar da crise e da estagnação”, acabará por induzir uma espiral recessiva.

Ponhamos de lado a inovação argumentativa da política a “conta-gotas” que remete para a ideia popular de que é sempre melhor fazer o mal todo de uma só vez do que aos poucos. Em última análise, ASP não quer que fiquemos a pensar que na sua teoria económica já não há lugar para efeitos multiplicadores da despesa pública corrente e de investimento. Tendo consciência de que perderia toda a credibilidade profissional se ignorasse os efeitos recessivos da austeridade, num contexto em que não é possível a desvalorização cambial, recorre à ideia (velada) de que faltam as “reformas estruturais”.

Bem sabemos o que são essas miraculosas políticas que, “fazendo o mal de uma vez só”, nos livrariam da “crise e da estagnação”. Na Letónia, durante os anos de 2008-2010, produziram uma quebra do PIB de 25%, superior à da Grande Depressão nos EUA, e uma emigração em escala dramática, superior às deportações do estalinismo. Se ASP pretende referir outro tipo de políticas que não sejam as da “desvalorização interna” (redução de salários, cortes selvagens nos serviços públicos) deveria ter a coragem intelectual de dizer quais são e onde é que produziram o resultado que refere – anulação dos efeitos recessivos da austeridade. Agora, não tem o direito de iludir os leitores menos informados ao dizer que a solução está em cortar no “despesismo”. O despesismo deve ser sempre combatido, mas ASP bem sabe que toda a racionalização da administração pública deve ser feita em período de crescimento. Nunca em recessão pois é contraproducente.

ASP não podia ser mais explícito porque o argumento não tem qualquer suporte na realidade. A corrente da “economia da oferta” em que mergulhou é o seu credo e remonta à Lei de Say. Com acesso privilegiado aos meios de comunicação de maior audiência, ASP faz parte de um grupo de economistas que recorre à ortodoxia económica para cobrir de respeitabilidade opiniões que são pura ideologia. Que a RTP, paga com o dinheiro dos contribuintes, também esteja colonizada por estes economistas pregadores de uma teoria económica pré-1929 diz muito da qualidade da democracia em que vivemos.

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