«Fragmentos de Tracey»

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fragmentos do futuro

O cinema contemporâneo vive, nos dias de hoje, um impasse que é, sobretudo, promissor. Por um lado, as novas formas de difusão, do DVD (e BluRay) à Internet, potenciam uma nova forma de “ver filmes”. Por outro, o espaço do museu e da arte contemporânea incorporou, já há algum tempo, práticas e discursos da linguagem cinematográfica. Esta diluição de fronteiras e multiplicação de suportes levam a uma procura de novas formas de contar histórias. Essas formas tem sido vistas em objectos tão diferentes como a série de televisão «24», o filme «TimeCode» de Mike Figgis ou parte do recente trabalho de Godard (como as «Histórias do Cinema»). Sem falar, é claro, da apropriação de “imagens cinematográficas” no espaço da arte. Chega hoje às salas portuguesas um projecto que é totalmente devedor desta discussão. Trata-se de «Os Fragmentos de Tracy», de Bruce McDonald (presente no último Festival de Berlim), e é um filme que, apesar da sua narrativa linear, socorre-se de uma multitude de janelas, de diferentes tamanhos, no ecrã tradicional. É, por isso, uma oportunidade de discutir assuntos tão importantes dos rumos do cinema actual.

A narrativa do filme conta a história de Tracey Berkowitz, uma adolescente numa encruzilhada terrível. A sua família é disfuncional, potenciada por um drama profundo: o seu irmão Sonny (ainda uma criança) desapareceu sem deixar marcas. Por isso, o filme segue o rasto de Tracey nas suas deambulações por uma cidade, usando o autocarro, à procura do irmão. De quando a quando ela parece ver Sonny, mas rapidamente percebemos que há muita ilusão e fantasia no seu mundo. Também por isso o filme mostra-nos as constantes consultas que Tracey tem com um psiquiatra. Para além disso, veremos como ela se relaciona com Lance, um homem solitário que lhe irá trazer problemas. Mais tarde, finalmente, perceberemos o alcance da loucura exponencial de Tracey: foi ela que, ao passear com o irmão, o deixou desaparecer. Ela tem que aguentar com o peso da culpa.

Na verdade, «Os Fragmentos de Tracey» é um fascinante exercício sobre as potencialidades da fragmentação da imagem. Claro que há uma associação imediata com a memória e com a capacidade que a memória tem de fragmentar os acontecimentos e colá-los como se fossem peças de um puzzle. Contudo, o equilíbrio que McDonald consegue entre essa fragmentação e a construção da narrativa é notável, já que o filme acaba por conseguir ter uma linha narrativa reconhecível (afastando-se, por isso, de outros projectos, mais marginais, que vão mais longe nesse estilhaçar de relações causa-efeito). Nesse sentido, «Os Fragmentos de Tracey» é um filme experimental que usa todos os dados novos lançados pela televisão («24» em primeiro plano), mas também da arte contemporânea (como os diferentes efeitos de imagem).

Sabe-se que McDonald filmou o projecto em apenas 14 dias, mas demorou cerca de 9 meses na sala de montagem. Como é óbvio, o filme é um objecto de trabalho de edição, onde cada imagem é confrontada com diferentes ângulos, mas também ecos das próprias imagens (como a repetição de sequências, com atraso ou avanço em relação à imagem original). Para além disso, McDonald consegue transportar para a montagem uma aproximação sentimental às personagens. Contudo, o filme só possui esta carga de sentimentos devido à performance genial dos actores, como Ellen Page que tem aqui a sua segunda grande actuação, logo depois de «Juno» que ainda há semanas podemos ver nos cinemas.

Enfim, «Os Fragmentos de Tracey» é um filme difícil, que obriga o espectador a olhar de novo, a estar atento para não perder o fio narrativo. É também curioso notar que este é mais um produto do cinema canadiano, sempre pródigo em nos oferecer autores e objectos únicos (basta citar, por exemplo, Norman McLaren ou Mike Hoolboom), onde o experimentalismo é o primeiro passo para descobrir um cinema fascinante. Claro que «Os Fragmentos de Tracey» é apenas uma primeira tentativa, com naturais desequilíbrios, mas vale a pena olhar com atenção para este notável exercício de re-invenção dos códigos e imagens do cinema.

«Os Fragmentos de Tracey» («The Tracey Fragments»). Um filme de Bruce McDonald, com Ellen Page, Libby Adams e Maxwell McCabe-Lokos. Canadá, 2007, Cores, 80 min.
Site Oficial: http://www.thetraceyfragments.com/

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