os voos sumptuosos

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O cinema asiático é um cinema capaz de mundos distintos: entre Wong kar wai e John Woo, por exemplo, vai um oceano inteiro de diferenças. É no meio dessas diferenças que descobrimos as características mais relevantes destes filmes, bastante diferentes dos filmes ocidentais: um tempo narrativo mais lento, uma capacidade distinta de olhar para história e uma aceitação quase radical de que o cinema não precisa de ser realista. Vem esta discussão a propósito da estreia comercial de «Inimigos do Império» um sumptuoso filme histórico, que nos trás algumas histórias de um Império ancestral. Aqui, tudo é possível, e o filme assimila muitas influências, sobretudo da televisão e dos jogos de computador. Como se poderá ver, o resultado é antagónico e potencia muitas leituras. Mas como primeira abordagem, deve-se vincar a beleza visual do filme que esteve presenta no último festival de Veneza e foi o candidato ao Óscar por Hong-Kong.

A narrativa é uma adaptação livre de «Hamlet» (aliás, bastante livre mesmo) e centra-se no meio de um Império Chinês. Aí o Imperador Li acaba de ser coroado graças à morte do seu irmão (crê-se que terá havido uma conspiração para o matar). A imperadora (e portanto, ex-cunhada) aceita-o com a perspectiva de vingança. O príncipe Wu Luan, filho de Li e apaixonado pela imperadora, volta para investigar a morte do pai. Contudo, todos eles têm interesses diferentes e vão lutar entre si para chegar ao poder. Será no banquete da coroação que tudo acontecerá e o desfecho é imprevisível.

À partida, há uma questão bem asiática logo de início: há uma crise nacional que só será resolvida se os bons conseguirem vencer os maus. Curiosamente, é nestes filmes asiáticos que mais se percebe um certo sentido maniqueísta de ver o mundo. Claro que é sobretudo nos filmes menos bons que isso acontece (não é, de todo, essa a questão nos filmes de Wong kar wai, por exemplo). E é essa a principal crítica que se pode fazer a estes «Inimigos do Império»: por vezes, parece uma versão sumptuosa e caríssima de um episódio mais demorado de qualquer animação manga. Esta estética ganha alguma relevância em termos cinematográficos, com uma detalhada construção do plano. Por exemplo com o sangue que jorra dos corpos ou as danças ancestrais que as personagens fazem, em voos fantásticos só ao alcance de um povo iluminado. Aliás, se alguma coisa não existe em «Inimigos do Império» é o povo (e esse até é um sentido bastante hamletiano).

Em conclusão, «Inimigos do Império» vale pela voz que transmite: uma capacidade de ser autêntico, de fugir ao comum. No filme tudo parece estranho, porque faz parte de uma estranheza que é distante de nós, distante do nosso contexto. Contudo, é possível ver nas entrelinhas de «Inimigos do Império» a mesma luta pelo poder e o mesmo fascínio pelo amor e pela beleza. Por outro lado, aquilo que é mais relevante é a beleza visual de um filme que teve um orçamento astronómico e que replica, quase até ao ínfimo pormenor um tempo de ostentação. Fascina visualmente, mas não entusiasma enquanto projecto cinematográfico.

«Inimigos do Império» («Ye yan – The Banquet») um filme de Feng Xiaogang, com Zhang Ziyi, Daniel Wu, Zhou Xun. China, 2006, cor, 131’.
Site Oficial: http://www.thebanquetthemovie.com/

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