Encíclica “Caridade na Verdade” no mesmo dia do G8 não é coincidência
“Confio à vossa oração este novo contributo que a Igreja oferece à humanidade, no seu compromisso por um desenvolvimento sustentável, no pleno respeito pela dignidade humana e pelas reais exigências de todos”.
A Encíclica “Caridade na Verdade” é a 295ª da história da Igreja Católica – documento máximo da religião católica – e corre o rumor de que o texto estaria preparado há mais de um ano, mas que o eclodir da crise levou ao adiamento da sua publicação. Com ele, fica a dúvida: até que ponto a decisão estratégica influenciou o seu conteúdo?
“Há uma coisa que é certa: a economia, por si mesma, é amoral. Quer lucros para alguns, mas não se interessa pela sorte das pessoas”, assegura o Frei Bento Domingues. “Tem de haver uma ética política e jurídica que controle esse amoralismo e este Papa não se vai candidatar ao Nobel da Economia nem quer dar lições de economia; quer uma economia ao serviço das pessoas, enquadradas na natureza, e baseado no desenvolvimento sustentável. O mundo é tanto dos vivos como dos que estão para vir”.
A publicação da Encíclica vem coincidir com a reunião do G8 em Itália. Ratzinger e Obama já têm encontro marcado para sexta-feira. “A coincidência não é fortuita”, garante o religioso. “O G8 já não é a resposta – nem as metas loucas que produziram o mundo em que estamos”, diz.
O facto é que, hoje, o mundo inteiro – e não apenas os cristãos – recebe um documento que é quase uma carta de aconselhamento para combater a crise. “Não apresentará alternativas ao capitalismo e ao marxismo, antes apontamentos para usar a ética como instrumento de combate”, garante Edgar Clara, padre-jornalista que dirige o semanário “Voz da Verdade”, do patriarcado de Lisboa. “O que me parece é que o Papa fala para os crentes, mas que também quer falar para o mundo.”
O caminho de Bento XVI não era fácil à partida. “Veio suceder a um Papa muito carismático”, explica Frei Bento Domingues. “Enquanto cardeal, Ratzinger já trazia uma imagem muito autoritária e não conseguia suscitar a mesma simpatia, mas agora está a conquistar pessoas e a atingir o equilíbrio”. A Encíclica “Caridade na Verdade” é exemplo disso. “Os cristãos esperavam que Bento XVI se concentrasse nas questões da fé, mas ele surpreendeu toda a gente ao escrever sobre o campo social e económico”, diz Edgar Clara. Lino Maia, padre que preside à Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade, garante que, “mesmo acusado de conservadorismo, Bento XVI é um grande pensador que falará do trabalho que há pela frente, da solidariedade entre os povos e da ética como resposta”. Em 1985 – ainda cardeal – a ética já fora central no seu discurso, numa comunicação visionária acerca do “colapso das leis do mercado” que a falta de ética poderia gerar.
(jornal i)