MOSCADEIRO
A TI, EL COMANDANTE!
Quando no nosso país, e até neste concelho da Maia, se passam as maiores intrigas e fraudes em todos os partidos, lembrar o El Comandante é, seguramente, uma corrente de água viva. Quarenta anos passaram em que, à “queima-roupa”, foi fuzilado aquele que, sendo médico, abraçou a causa da liberdade dos povos e de cada homem e de cada mulher. Che Guevara ainda hoje, e sê-lo-á por muito tempo, é o paradigma do comandante que nada espera, e tudo dá. Nem a sua doença asmática foi impedimento para lutar, principalmente, pelos mais desprotegidos e, quando em Cuba lhe deram lugar de relevo, ele não aceitou, colocando-se como servo. Não foi ofuscado pelo poder, rejeitou-o e pelas matas e prados fora construiu a canção da liberdade inaugurando uma nova esperança. Em cada flor do mato viu uma amiga e em cada noite de luar abraçou a humanidade. Quando em Portugal as forças da mordaça, de Salazar ou Caetano, nos impediam de cantar, de beijar a liberdade, a força do Che era suficiente para não nos deixar desesperados; foi nele que vimos nascer uma nova humanidade proclamando a justiça e a paz, e nem a sua morte fez com que o nosso caminhar fosse coarctado. Nessa longa noite de uma guerra colonial, em que se proibia o amor e em que era perseguido nas avenidas, ruas e vielas das nossa cidades um simples beijo a uma flor, lá das montanhas da luta onde estava Che Guevara vinham os acordes das melodias que nos faziam chorar de raiva e lutar. Lutar como em Maio de 1968 em França, por uma nova ordem internacional. E isso foi muito bonito! Deixarmos de ser nós, para encarnarmos a vida de cada um e oferecermos ao mundo as nossas vidas, num holocausto consentido. Foi assim naqueles anos, em que as correntes nos cortavam os pés e as mãos.
Hoje, a mensagem continua a ser verdadeira, o poder corrompe as mais saudáveis mentes, mas como Adriano Correia de Oliveira cantava, “há sempre alguém que resiste/ há sempre alguém que diz não”. E é assim, quando governos, mesmo da esquerda, poderes concelhios, ou mesmo partidários, tentam com jogos, sufocar todas e todos, que persistem nesta melodia da utopia, e que só com ela conseguem viver a realidade, é que o poema se faz arma, e, por mais ameaçados que formos, não deixaremos de cantar a alegria da vida e sentir a luz das fogueiras, aos sons da liberdade. Sabemos que um dia Che Guevara sonhou que todos seriam felizes, e felizmente muitos de nós temos também essa forma de proceder. Um proceder que se mantém incandescente, porém pronto a transformar-se em labareda ao menor sinal de injustiça. O lobo e o cordeiro dormirão juntos, dizia o profeta, e nós aqueles que ainda somos capazes de fazer de cada dia a Vida, não dormiremos nunca ao som da desilusão, porque a força das nossas mãos, não está destruída, mas agarrada à vida, e esta nunca aos poderes, sejam quais forem, instituídos. Saberemos sempre desobedecer, quando é necessário, porque isso significa o exercício da cidadania, da participação, não sendo os “bons costumes”, o “politicamente correcto”, nem os bastões de quaisquer polícias ou interesses, sob o jugo das pressões económicas, físicas ou psicológicas, que farão com que deixemos de possuir a capacidade da resistência.
Por isso a ti querido El Comandante, as minhas palavras encontram eco em Miguel Torga, num poema que te dedicou e que diz: “Quem te abateu, perdeu a guerra santa/Da liberdade./ Fez brilhar na manhã do mundo inteiro/ Um sol de redentora claridade/ O teu rosto de Cristo guerrilheiro”, ou de Eugénio de Andrade: “ A palavra, como tu dizias, chega/ húmida dos bosques: temos de semeá-la; /chega húmida da terra: temos de defendê-la;/ chega com as andorinhas/ que a beberam sílaba a sílaba na tua boca. // Cada palavra tua é um homem de pé; cada palavra tua/ faz do orvalho uma faca,/ faz do ódio um vinho inocente/ para bebermos contigo/ no coração em redor do fogo”. Por isso Che tu foste, e és, a chama da vida, em ti também, ainda hoje, encontro as forças da fraternidade e da liberdade, para a luta por uma nova humanidade. E sabes, por uma forma de estar na vida política com as armas loucas da aventura, com aquelas que quase ninguém conhece, mas que eu amo. Obrigado Ernesto Che Guevara, pela tua vida!
Joaquim Armindo
Membro da Comissão Política do PS da Maia
http://www.bemcomum.wordpress.com
Escreve esta crónica quinzenalmente.
Outubro 10, 2007 às 12:21 am |
[...] Joaquim Armindo debulha-se sobre Che Guevara: Em cada flor do mato viu uma amiga e em cada noite de luar abraçou a humanidade. Quando em Portugal as forças da mordaça, de Salazar ou Caetano, nos impediam de cantar, de beijar a liberdade, a força do Che era suficiente para não nos deixar desesperados; foi nele que vimos nascer uma nova humanidade proclamando a justiça e a paz, e nem a sua morte fez com que o nosso caminhar fosse coarctado. Nessa longa noite de uma guerra colonial, em que se proibia o amor e em que era perseguido nas avenidas, ruas e vielas das nossa cidades um simples beijo a uma flor, lá das montanhas da luta onde estava Che Guevara vinham os acordes das melodias que nos faziam chorar de raiva e lutar. Lutar como em Maio de 1968 em França, por uma nova ordem internacional. E isso foi muito bonito! [...]
Outubro 10, 2007 às 1:07 am |
[...] descobre-se estas e outras pérolas sobre Che Guevara, assinadas por Joaquim Armindo, “membro da Comissão Política do PS da Maia“: Por isso Che tu foste, e és, a chama da vida, em ti [...]
Outubro 10, 2007 às 8:18 am |
Sim, a poesia é muito bonita, a musa é que é fraca.
De Che pode dizer-se muito mais, basta que se saiba um pouco mais, coisa em que o Sr Armido, perdido na estratosfera da lírica, não está interessado.
Ele é mais “poemas”, e flores, e a andorinhas, e semi-deuses de túnica a tanger harpa e a cheirar a rosas.
Mas esse Homero dos pobres, além de ter ajudado a criar milhões deles, escreveu por exemplo que ” um povo sem ódio não pode triunfar sobre um inimigo brutal”.
E descreveu com frieza clínica os estertores da morte de um “inimigo brutal” a quem executou com um tiro na têmpora.
Isso para além de ter superentendido a execução de mais de 800 “inimigos brutais”. Um homem de paz, portanto.
Um génio económico, tb…convenceu Fidel de que em menos de um fósforo Cuba estaria com um PNB per capita superior ao dos EUA.
Entre outras medidas brilhantes, o intercambio com a URSS: açucar para Moscovo, limpa-neves para Havana.
O resultado fala por si. Hoje, 2007, o PNB cubano é mais ou menos igual ao de 1959, já contando com o recente turismo capitalista.
Para os Armindos é contudo um herói e convém escrever-lhe elegias, porque é a “cultura dominante” e esta malta quer assegurar a sua parte do bolo na máquina estatal.
Outubro 10, 2007 às 1:25 pm |
Caro Amigo Joaquim Armindo:
Che Guevara é uma figura incontornável da história política, que marcou profundamente o Séc XX.
Não é um herói apenas para “os Armindos” nem tem a ver com cultura dominante. É herói para milhões de cidadãos em todo o mundo, desde os países mais conservadores aos mais progressistas.
É claro que há sempre igonrantes que nunca perderam um minuto a estudar história política mas não se inibem de emitir opinião, para quem Che não é mais que um símbolo do pior que os regimes progressistas tiveram e alguns infelizmente ainda têm.
Che Guevara teve virtudes e defeitos como todos, e claro que cometeu erros no seu percurso político, mas não é disso que se trata. Falamos de um HOMEM que soube estar à frente no seu tempo e lutou para dar voz a quem não tinha voz.
É claro que tudo isto incomoda muito os salazarengos dos nossos tempos para quem Pinochet tinha muito mais virtudes que Che Guevara, mas julgo que essas opiniões não retiram nenhum mérito ao artigo que escreveu, nem o ddevem atingir minimamente.
De resto sei perfeitamente das suas convicções e sei também que elas são sólidas e não se deixarão abalar por aqueles que apenas sabem estar atrasados na história do seu tempo, e não é desses que a história é feita…
Estou-lhe grato por ter escrito este artigo e por ter escolhido o espaço deste blog para também o divulgar.
Um abraço
Andrade Ferreira
Outubro 10, 2007 às 4:19 pm |
“e lutou para dar voz a quem não tinha voz. ”
Bem, o tipo que foi executado a frio com um tiro na cabeça pelo “HOMEM que estava à frente do seu tempo”, deve ter ficado sem voz.
Digo eu, não sei, mas se um tarolo diz que o fantástico Che estava a lutar para lhe dar voz, é capaz de ter razão.
O que conta é a intenção…
Outubro 10, 2007 às 4:24 pm |
“Ah e tal, cometeu erros.”
Sim…é disso que se trata. Umas centenas de execuções, milhões de pessoas na pobreza e sem liberdade, são “apenas alguns erros”
Desculpáveis, claro.
O homem, além de homofóbico, tinha excelentes intenções.
Mesmo quando dizia à boca cheia que os pretos eram indolentes, na sua aventura africana.
Meros “erros políticos”.
Outubro 10, 2007 às 9:05 pm |
Quem não conhece Ernesto Guevara Lynch de la Serna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che.
É realmente uma figura da história, um herói para milhões de cidadãs e cidadãos.
E usou uma linguagem muito própria, não entendida por muitos
“Sonha e serás livre de espírito… luta e serás livre na vida.”
Ou então:
“Se você é capaz de tremer de indignação a cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros.”
Claro que como revolucionário que era incomodou muita gente, mas isso não o fez perder o seu propósito.
Por isso, só tenho de agradecer ao Eng. Joaquim Armindo por partilhar connosco este texto que está realmente muito bom.
Lurdes Gomes
Outubro 11, 2007 às 8:52 am |
“Claro que como revolucionário que era incomodou muita gente, mas isso não o fez perder o seu propósito”
Incomodou pois…pelo menos o infeliz a quem executou com um tiro na têmpora.
Vejamos como o próprio Homero dos pobres, descreve o modo como não perdeu o seu propósito:
“Disparei uma bala de calibre 32 contra o hemisfério direito do seu cérebro que saiu pela têmpora esquerda. Ele gemeu por uns momentos e depois morreu.”
Ele, era o camponês Eutimio Guerra, acusado, julgado e executado no acto por ser “traidor à causa”, o que quer que isso fosse.
Não sei se Che terá “tremido de indignação” neste caso e nos outros 800 casos de “traidores” executados mas, a avaliar pela modo frio como descreve o seu acto heróico, não só não tremeu, como meteu a bala exactamente onde queria.
Afinal de contas era médico.
Enfim, um herói…