no labirinto da vida – sobre «Sinal de Alerta»

By Daniel Ribas

«Sinal de Alerta»

Há uma questão central no cinema contemporâneo que anda à volta do termo realismo. Muitas vezes, e até nestes textos, se tem referido o cinema realista como uma força, algo profundamente ligado a uma experiência limite, que nos deixa encantados com o cinema. Contudo, é importante – é, aliás, decisivo – ter em conta que este realismo de que falamos nunca pode ser confundido com o realismo televisivo, imediato e, tantas vezes, profundamente ficcional (porque construído narrativamente e, por isso, manipulado). No cinema, por termos certeza dessa manipulação, o realismo é outra coisa, mais ligada com a experiência do espectador e com a capacidade dos filmes se ligarem com um contexto social com uma força dramática especialmente sentida. Vem isto a propósito da estreia, em Portugal, de um filme que se socorre de uma certa força do realismo social inglês. Falámos do filme de Andrea Arnold, «Sinal de Alerta» (noto, desde já a total incompreensão do título português, que pouco tem a ver com os sentidos múltiplos de «Red Road», mas lá chegaremos). A realizadora é conhecida desde que venceu um Óscar para Melhor Curta Metragem com o filme «Wasp». «Sinal de Alerta» é a sua primeira longa-metragem e já valeu o Prémio do Júri no último Festival de Cannes.

A narrativa ocupa-se da história de Jackie, uma polícia responsável por operar um sistema de CCTV (câmara de controlo) na cidade de Glasgow. Ela tem acesso a muitas imagens, a muitos pedaços de vida de pessoas, anónimas, que passam na rua e a quem lhes acontece alguma coisa. É no meio dessas pessoas que Jackie descobre um homem, Clyde, ligado a um passado terrível na vida de Jackie. Começaremos a perceber, com o decorrer da narrativa, que Clyde matara o marido e filha de Jackie, num brutal acidente de viação (Clyde conduzia sob o efeito do crack). A obsessão de Jackie por Clyde, solto por bom comportamento, vai ao ponto de Jackie se introduzir na vida de Clyde (através de uma festa em que os dois se conhecem). O objectivo de Jackie é claro: arranjar forma de quebrar a frágil situação criminal de Clyde. Contudo, mesmo que, em última análise, Jackie consiga voltar a prender Clyde, esta história será, sobretudo, sobre a forma como Jackie conseguirá ultrapassar o seu passado, para que se possa reencontrar como uma pessoa com um futuro, mesmo que incerto.

O filme, conduzido com uma segurança invulgar, é uma interessante co-produção europeia, entre uma produtora dinamarquesa, a Zentropa (ligada ao movimento do Dogma 95), e a escocesa Sigma. As duas produtoras, através dos realizadores Anders Thomas Jensen e Lone Scherfig, criaram um conjunto de 7 personagens e escolheram um local – Glasgow – e três novos realizadores para criarem três diferentes filmes. «Sinal de Alerta», de Andrea Arnold, é o primeiro. E o que se pode dizer é que é um excelente exemplo de um típico realismo britânico, conseguido, sobretudo, através da fotografia, da câmara ao ombro e do cenário natural de Glasgow. Andrea Arnold escolheu a Red Road, uma área da cidade cujos prédios são impressionantes conjuntos de arranha céus, ocupados por uma marginalidade social (a certa altura se dirá que os prédios são habitados por ex-prisioneiros).

A margem social torna-se, assim, o centro do filme, já que, de um lado temos Jackie, uma polícia, vigilante nas câmara de controlo e, do outro, Clyde, um marginal, habituado às prisões e mulherengo assumindo. Este confronto social, que espelha outro confronto, funcionará como pano de fundo da história pessoal de Jackie. É aí que «Sinal de Alerta» mostra os seus pontos fortes ao mostrar-se um filme narrativamente limpo e muito bem construído. Nesse sentido, o filme espelha uma galeria de personagens credíveis, que o espectador consegue sentir. Para melhor perceber do que falamos, relembre-se uma cena paradigmática, quando Jackie, em visita ao apartamento de Clyde, encontra Stevie e April. Stevie convida Jackie para sentir o vento na janela: quando os seus cabelos começam a voar, percebemos, de imediato, o remoinho de sentimentos – a imagem ganha espessura e significados vários. É também por isso que é um crime traduzir Red Road para «Sinal de Alerta», já que o título original tem um duplo significado: o bairro onde passa grande parte do filme, e a rua específica onde Jackie perdeu a filha e o marido (a rua do vermelho, do sangue da morte).

Estamos perante um pequeno, mas brilhante filme, que vai passar um pouco despercebido nas nossas salas, ofuscado pelos grandes êxitos internacionais. Mas é dentro da sala, ao ver «Sinal de Alerta» que parece que voltamos a acreditar no cinema. A experiência é forte porque o filme nos coloca no labirinto da vida. Voltar a acreditar que é possível voltar a viver passa a ser, assim, a mensagem mais forte destas imagens.

«Sinal de Alerta» («Red Road») um filme de Andrea Arnold com Kate Dickie, Tony Curran e Martin Compston. Reino Unidos/Dinamarca, 2006, cor, 113’.
Site Oficial: http://www.vervepics.com/redroad.shtml

Publicado originalmente no suplemento SE7E de «O Primeiro de Janeiro»

Uma Resposta para “no labirinto da vida – sobre «Sinal de Alerta»”

  1. Paulo Evangelista Diz:

    Chamo-me Paulo Evangelista, sou o Produtor e Diretor responsável pela Companhia de teatro Ypê (cia. de teatro Ypê). Autor do Projeto Prevenção na Escola com o espetáculo “No Labirinto da Vida”. O Projeto é uma iniciativa da Companhia de Teatro Ypê, com o objetivo de levar ao palco questões sociais que envolvem a vida do jovem contemporâneo, tais como o uso de drogas, a violência nas escolas, o desemprego e a inserção no mercado de trabalho etc. Autor de textos e roteiros para o teatro e para o cinema. Acreditamos que o teatro é um “instrumento” de formação de cidadãos que permite aguçar o senso crítico das pessoas e, sobretudo, sensibilizá-las e despertar a sua criatividade, colaborando assim para os desafios do futuro. É nesse sentido que nos aproximamos das escolas, dos mestres educadores e de toda a comunidade escolar. Abraço Paulo

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